Jardins da Quinta passam pela primeira reforma em 102 anos
Vasos foram restaurados a partir de cacos e voltaram à cor original
Restauração do terraço da Quinta da Boavista Marcelo Carnaval / O Globo
RIO - Mais de um século de história do Terraço da Quinta da Boa Vista,
inaugurado em outubro de 1910, agora pode ser apreciado na sua totalidade.
Antiga esplanada do palácio real, o jardim em estilo francês passou pela
primeira reforma em quase 102 anos. A balaustrada ocre e os postes históricos
estão de volta. O espaço também recebeu tratamento paisagístico, sendo entregue
nesta sexta-feira, Dia do Patrimônio Histórico.
Apesar de tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan), o terraço sofreu décadas de abandono, roubos e vandalismo. Há dez
meses, a Secretaria municipal de Conservação iniciou uma minuciosa recuperação
do jardim, que hoje faz o visitante mergulhar nos primeiros anos da República.
Detalhes esquecidos reapareceram durante as obras, como a cor original terracota
de 32 vasos, antes cobertos por camadas de tinta e sujeira.
— Com o apoio de arqueólogos do Museu Nacional, retiramos as camadas de tinta
que há 50 anos cobriam os restos de vasos que haviam no jardim — lembra Vera
Dias, gerente de monumentos e chafarizes da secretaria. — Juntamos os cacos para
refazer uma peça e moldar todas as outras.
Redescobertas imagens de Nilo Peçanha e Afonso Pena
Os restauradores também descobriram duas faces em alto relevo do lado de fora
dos muros do jardim. A gerente de monumentos e chafarizes da prefeitura, Vera
Dias, que não conhecia as obras (encobertas ao longo dos anos), conta que uma
das imagens é de Nilo Peçanha, presidente do Brasil na época da inauguração do
jardim, e a outra é de Afonso Pena, seu antecessor, que começou a revitalização
da Quinta da Boa Vista. Sobre o projeto de 1910, a gerente diz que não há
certeza sobre a sua autoria.
No século XIX, o espaço com palmeiras alinhadas servia de esplanada ao
palácio onde vivia a família real. Hoje, os nobres aparecem representados por
uma estátua da Imperatriz Leopoldina com os filhos Maria da Glória e Pedro,
disposta no jardim. O monumento passou por limpeza.
Balaústres roubados
A reforma custou R$ 377 mil e incluiu a recuperação da balaustrada
danificada. Logo na entrada, faltava uma parte, levada por ladrões. O secretário
municipal de Conservação, Carlos Roberto Osorio, conta que, no roubo, em 2008,
um caminhão foi usado. Foram levados ainda três postes originais, ornamentados
com dragões da Casa Bragança. O município repôs 256 balaústres, de um total de
pouco mais de 400. Sete luminárias foram refeitas pelo modelo original.
O próximo passo, diz Osório, é levar de volta para o jardim quatro estátuas
em mármore de carrara, representando os continentes Europa, África, Ásia e
América, que integravam o terraço. Por causa de vândalos, nos anos 90 elas foram
para dentro do Museu Nacional, restando do lado de fora apenas os pedestais.
— Gostaríamos de trazer as estátuas. Vou propor que a prefeitura faça cópias,
que ficariam dentro do museu. As originais ficariam do lado de fora — afirma o
secretário, citando como exemplo o Jardim do Valongo, que atualmente exibe suas
estátuas originais.
O projeto de recuperação do terraço incluiu ainda o plantio, pela Fundação
Parques e Jardins, de 2.050 mudas de espécies ornamentais. O brilho renovado
encantou ontem quem passeava pela Quinta da Boavista. A professora da História
Giselle Batista levou cerca de 60 alunos de uma escola municipal de Itaboraí
para conhecer a área. Os adolescentes ficaram encantados com um casal de atores,
caracterizados com trajes de época de Dom João VI e Carlota Joaquina, que
caminhava pelo jardim:
— Sempre achei esse lugar muito bonito, apesar do abandono. Para mim vir aqui
é sempre uma atividade cultural, que ajuda a criar o hábito de visitar os
museus.