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domingo, 15 de julho de 2012

Nireu Cavalcanti: uma história de paixão pela cidade do Rio de Janeiro


Nireu Cavalcanti: uma história de paixão pela cidade


O arquiteto e pesquisador prepara mais um livro para ajudar a conhecer o Rio

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Nireu Cavalcanti: novo livro vai abordar pontos da História que não o convencem
Nireu Cavalcanti: novo livro vai abordar pontos da História que não o convencem
Nireu Cavalcanti é um apaixonado pela História do Rio e, consequentemente, um apaixonado pela cidade.
— Sempre tive paixão pelo Centro da cidade — admite ele. — Somos privilegiados por viver numa cidade que é a própria História do país, a história da formação de um povo, da formação da brasilidade. Os baianos que me perdoem, mas o Rio de Janeiro tem uma característica mais heterogênea do que a própria Bahia, só pelo fato de ter sido capital do país desde 1763 até a segunda metade do século XX, e por abrigar um porto altamente cosmopolita.
A ironia é que um professor tão ligado às raízes do Rio não é carioca. Alagoano de Batatal, chegou aqui com 17 para 18 anos — está com 66 — para se desenvolver como escultor, talento que trazia de Alagoas. Na dúvida entre cursar a faculdade de Belas Artes ou a de Arquitetura, optou pela segunda. Não se lembra de, na escola, ainda em Alagoas, ter se destacado nos estudos de História.
— Eu não era bom em nada. Eu era escultor! — reage.
Mas foi justamente no curso para tornar-se arquiteto que passou a se interessar pelo assunto, destacando-se nas aulas de História da Cidade, História da Arquitetura, História de Estilos, História da Arquitetura Brasileira...
— Quando me formei, vários professores me convidaram para ser seu auxiliar.
Ele especializou-se em Planejamento Urbano Regional e acabou fazendo doutorado em História, quando elaborou uma tese que transformou-se em seu livro mais famoso, “Rio de Janeiro Setecentista”, cujo conteúdo ele descreve como “a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte”.
Conhece-se melhor a História do Rio com os livros de Nireu Cavalcanti. Ele é autor de “Santa Cruz”, volume da coleção “Cantos do Rio”, editada pela Prefeitura, no qual, com pesquisa documental, narra a História do bairro e de seus monumentos. Em “Crônicas — Histórias do Rio Colonial”, ele traz uma coleção de artigos que escreveu para o “Jornal do Brasil” em que trata dos costumes cariocas, com a leveza de um dos maiores cronistas da cidade, o autor de “O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis”, Luís Edmundo (1878-1961). Ele rejeita a comparação:
— Eu não gosto de coisa impostada. Luís Edmundo interpreta muito o documento. Quem fez História Urbana foi Maurício Abreu — corrige ele, lembrando o geógrafo, autor de “Evolução urbana do Rio de Janeiro”, que morreu no ano passado.
Nireu Cavalcanti espera lançar este ano mais um livro, “Conflito colonial”, no qual aborda “pontos da História que não estão convencendo a mim”. O principal deles é a versão consagrada de que a Corte portuguesa chegou aqui, em março de 1808, com 15 mil pessoas.
— Não eram nem 500 — contesta.
O historiador não aceita nem a versão de que, na conta tradicional, estava incluída a tripulação dos navios.
— Mesmo assim. Com os tripulantes, não chegamos nem a oito mil pessoas. E é preciso se levar em conta também que todos os navios, com suas tripulações, voltaram para Portugal em agosto. Não foi mesmo um número significativo. Eles não poderiam desarmar a administração de Portugal, nem o Exército. Esta versão foi criada num livro de memórias de um soldado da Marinha inglesa, Thomas O’Neil. Mas ele não viu nada. Apenas reproduziu o relato de um sargento português.
Parte da paixão de Nireu Cavalcanti pela cidade passa por pontos que o Rio nem possui mais.
— O Rio de Janeiro é a cidade de prefeitos que provocaram grandes perdas. A mais significativa é a derrubada do Morro do Castelo. Temos uma história de governantes muito desqualificados do ponto de vista da importância do patrimônio da cidade. Em 1922, o prefeito Carlos Sampaio derrubou o começo da História do Rio para comemorar os cem anos da Independência. Quando vou à área da Ladeira da Misericórdia, que foi o que sobrou do morro, fico muito emocionado. Eu sei que por aquele pedacinho de ladeira caminharam grandes figuras da História do Brasil.
E o professor continua reclamando:
— Quando Dom João VI chegou ao Brasil, havia um projeto na Câmara dos Vereadores para derrubar o morro. A justificava era a de que ele impedia a circulação do ar. Já na época, provou-se que isso não era verdade. Mais de cem anos depois, a mesma justificativa eliminou da cidade o seu ponto mais marcante.
Desafiado a escolher um ponto importante do Rio que não seja caracterizado pela perda, Nireu Cavalcanti não titubeia: o Passeio Público.
— Na Colônia, nossos governantes não podiam ter a sua representação em espaços públicos. A cidade do Rio não tinha estátuas, nem monumentos. Era despida. Isso só veio a ser rompido pelo vice-rei Luís de Vasconcelos (1742-1809) na construção, em 1783, do Passeio Público.
A Corte não permitia que fossem realizadas na cidade obras de grande porte. O Campo de Santana era um descampado. A Casa do Governador era modesta. Nenhum prédio podia ser chamado de palácio e nem tinha características que justificassem este nome.
Sem pedir dinheiro à Coroa — até por que, se pedisse, a Coroa não daria — o vice-rei construiu nosso primeiro parque público e espalhou por ele os até então inéditos estátuas e monumentos.
No apartamento de Laranjeiros, onde vive com a mulher, Regina (eles têm dois filhos, o designer Tiago, de 36 anos, e a dentista e cineasta Andréa, de 34), Nireu Cavalcanti se empolga com a história do Passeio Público:
— É a nossa primeira obra de caráter não utilitário.
E não tem medo de afirmar:
— O Luís de Vasconcelos foi o maior governante que nós já tivemos.


Os fortes do Rio sofrem com abandono !


Os fortes do Rio sofrem com abandono


Das dez fortificações que cercam a Baía de Guanabara, apenas quatro estão abertas à visitação e uma se encontra em ruínas

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O Forte da Lage, na Baía de Guanabara: construção, iniciada no fim do século XVII, está abandonada, com janelas corroídas pela maresia, canhões enferrujados e cacos de vidro espalhados pelo piso de madeira
Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo
O Forte da Lage, na Baía de Guanabara: construção, iniciada no fim do século XVII, está abandonada, com janelas corroídas pela maresia, canhões enferrujados e cacos de vidro espalhados pelo piso de madeira Custodio Coimbra / Agência O Globo
RIO — Símbolo da arquitetura militar do século XVIII, o Forte da Lage ajudava a formar — com as fortificações de Santa Cruz e São João — uma barreira quase intransponível aos corsários franceses, em suas recorrentes investidas na busca por ouro, açúcar e especiarias. Convertido a área operacional do Exército, serviu de presídio, acabou desativado em 1997 e hoje apresenta-se em petição de miséria. Janelas corroídas pela maresia, cacos de vidro espalhados pelo piso de madeira e canhões enferrujados contrastam com a imponência visual dos fortes da Baía de Guanabara. A Lage representa o descaso das autoridades fluminenses com um patrimônio mundialmente reconhecido e referendado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A falta de visibilidade das fortificações do Rio e de Niterói também é nítida: das dez existentes na baía, apenas quatro estão abertas à visitação (Santa Cruz, Pico, São Luiz e São João).
O Forte da Lage — com “g” mesmo, na grafia antiga — fica a três quilômetros da Praia da Urca, e o acesso do GLOBO à ilha foi feito por uma canoa havaiana. Partindo da Urca, navega-se por 20 minutos até a formação rochosa. O acesso, dificultado pelo mar constantemente revolto, é feito por uma escada de pedra, depois de um curto trajeto a nado. O fisioterapeuta Antônio Magnago conta que os adeptos da canoagem costumam fazer piquenique por lá:
— Eu tirei serviço aqui em 1988, quando era soldado — conta Antônio, caminhando pelas escuras salas do forte. — Era uma base do Forte São João, e a gente vinha de bote a motor. Quem vinha para cá ficava sem fazer absolutamente nada. Tinha alojamento, cozinha. Havia um sumidouro que fazia um barulho estranho, e o pessoal botava medo nos soldados, dizendo que era o monstro da Lage. É uma pena que esteja abandonado. Isso é um patrimônio de todos nós e deve ser preservado.
Há infiltrações por todos os cantos. Numa parede, uma inscrição indica que a última obra de restauração foi feita em outubro de 1902, durante o governo Pereira Passos. Na fortificação, estiveram detidos vários personagens da história do Brasil, como José Bonifácio e Olavo Bilac, este por críticas ao marechal Floriano Peixoto. De acordo com o Comando Militar do Leste (CML), a Ilha da Lage é hoje um patrimônio sob responsabilidade do Centro de Capacitação Física do Exército, que fica na Urca. Em 2002, a corporação chegou a levantar os custos de sua recuperação, mas os valores foram considerados muito altos, inviabilizando o projeto. O Exército diz que limpa periodicamente as sujeiras trazidas pela maré e de “pessoas não autorizadas a entrar no recinto (pescadores, banhistas etc)”. Atualmente, diz o CML, a iniciativa privada tem interesse em tornar a Lage um ponto turístico.
O pequeno forte não é tombado por nenhuma das três instâncias (União, estado e município), mas o historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Adler Homero lembra que a preservação não é um processo simples.
— Somente a construção do forte custou o equivalente a R$ 2 bilhões. O material está sem conservação adequada há 50 anos. O tombamento tem duas vertentes: uma é a concessão do título, a outra, mais importante, é a garantia da preservação. A dificuldade de acesso à ilha é enorme, o mar chega a encobri-la por completo. A questão financeira pesa: somente a recuperação da Lage custaria R$ 40 milhões. E o orçamento do Iphan é de R$ 120 milhões — compara Homero.
Estudioso da história do Brasil, o arquiteto Nireu Cavalcanti lamenta o descaso com o Forte da Lage e cobra uma rápida atuação para evitar que a história desabe no coração da Baía de Guanabara.
— A paisagem do Rio não existe sem o Forte da Lage. Até hoje ele tem um farol que marca a entrada da Baía. Deve ser restaurado, tombado pelo Patrimônio Histórico. Era uma fortaleza baixinha que dava muito trabalho aos invasores. Sua construção começou no fim do século XVII, mas só foi efetivamente instalada a partir de 1720, depois da exitosa invasão dos franceses comandada por René Duguay-Trouin. O projeto era do arquiteto (engenheiro militar) francês João Massé — comenta Cavalcanti. — O Rio e Niterói precisam ter um programa conjunto de visitação aos fortes.
Levantamento feito pelo GLOBO mostra que somente quatro fortes da Baía de Guanabara (três deles em Niterói) estão abertos ao público: Santa Cruz, Pico, São Luiz e São João. A Fortaleza de Santa Cruz recebe em média 3.500 visitantes por mês. Na cidade, só perde para o Museu de Arte Contemporânea (MAC), que está na faixa dos 20 mil. O entorno da Guanabara conta com outros seis fortes: Ilha da Boa Viagem, Ilha das Cobras, Gragoatá, Rio Branco, Lage e Villegaignon. O presidente da Niterói Empresa de Lazer e Turismo (Neltur), José Haddad, reconhece que falta dar visibilidade a estas maravilhas históricas:
— Estamos discutindo com o Exército a elaboração de um projeto conjunto para consolidar os fortes como produto turístico. A intenção é incluir todas estas estruturas.
A Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército informou que está em curso um projeto de formalização de um roteiro turístico das fortificações, em parceria com o Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da Coppe/UFRJ e o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj). Em 1998, o Exército decidiu que todos os fortes seriam abertos ao público. Mas a decisão acabou sendo revogada.


sábado, 14 de julho de 2012

Rio como patrimônio paisagístico da Humanidade . . . PRA INGLÊS VER !




Quinze anos de abandono
14 Jul 2012


As fortificações da Baía de Guanabara tiveram um papel determinante na eleição do Rio como patrimônio paisagístico da Humanidade, conferido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A mais imponente e conhecida delas, a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, foi citada no relatório da Unesco como "obra impecável da arquitetura colonial militar luso-brasileira". Mas e as outras? Quais as histórias por trás de nossos fortes e fortalezas menos conhecidos?
Na busca por estas respostas, o repórter Emanuel Alencar e o repórter-fotográfico Custódio Coimbra entraram em contato com um clube de canoagem da Urca, embarcaram numa canoa havaiana, navegaram por águas agitadas e aportaram no Forte da Lage - a ortografia antiga foi mantida, segundo o Iphan. Em frente ao Morro Cara de Cão, a pequena ilha, estrategicamente posicionada na entrada da Baía, tem uma história pouco conhecida de 290 anos. Está abandonada desde 1997, quando o Exército deixou de vigiá-la, mas é frequentemente visitada por pescadores e amantes de esportes náuticos.
- Ficamos impressionados com o cenário desolador do interior da fortificação. Não poderíamos imaginar que uma construção histórica, que serve de parâmetro para competições de canoagem e para a navegação, estaria completamente esquecida - diz Emanuel.
Fanático por livros de História do Brasil, Custódio matava, naquela manhã de quarta-feira, sua curiosidade ao desvendar os mistérios da Lage. Não demorou a subir na cúpula oval da estrutura, onde estão repousados cinco canhões.
- É inacreditável que um local histórico como a ilha da Lage esteja ruindo com a maresia. Os canhões, de valor histórico inestimável, vão desabar a qualquer dia - lamenta Custódio.
A reportagem e o vídeo sobre o Forte da Lage e os planos do Exército para a ilha você lê e vê neste domingo, no GLOBO.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

São Elesbão e Santa Efigênia


Quarta, 11 Julho 2012 11:04

São Elesbão e Santa Efigênia


Escrito por

A região do Saara no Rio de Janeiro, que inclui as ruas Senhor dos Passos e da Alfândega, possui um dos maiores conjuntos de imóveis históricos, cuja construção se situa aproximadamente entre o final do século XIX e o início do seguinte. Verdadeiro coração do comércio popular e legal da cidade, sua origem se estende por séculos, quando a grande área além da rua da Vala (Uruguaiana) era conhecida como Campo ou Várzea da Cidade e depois de São Domingos, sendo ocupada só a partir dos anos 1700.
Naquelas duas ruas principais existem três igrejas que testemunham a antiguidade do local: São Gonçalo Garcia (São Jorge), do Terço e de São Elesbão e Santa Efigênia. É dessa última que falaremos hoje.
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A antiga Igreja de São Elesbão e Santa Efigênia, em pleno
coração do Saara



O Campo de São Domingos, mencionado acima, recebeu esse nome a partir do início do século XVIII, quando escravos e libertos ergueram uma capela no descampado chamado de Várzea da Cidade. Ninguém por ali morava, só existindo um caminho que ia dar no Valongo (Saúde). Dedicada a São Domingos de Gusmão, o modesto templo ficava em frente a um cemitério de escravos. Posteriormente convertido em igreja, iria desaparecer em 1942 com a abertura da Av. Presidente Vargas.
Mas a iniciativa dos devotos de São Domingos atrairia outros grupos de escravos com a mesma necessidade por uma casa própria. Um deles era ligado a Santa Efigênia e São Elesbão, e até então celebravam o culto em uma residência. Em 1740 obtiveram permissão para construção de sua igreja. Foi comprado um terreno próximo à Igreja de São Domingos, junto ao antigo caminho de Capueruçu, e as obras começaram em 1747. Em 1754, era inaugurada a capela, e a rua, nesse trecho, passou a ser chamada de Santa Efigênia, com referência ao novo templo.
A igreja tinha bom número de fiéis e continuou com vigor durante o século XIX, mas sofreu duro golpe quando da proclamação da Lei Áurea, pois perdeu grande número de devotos, escravos que contribuíam para o sustento do templo que, após o fim da escravatura, foram para o interior em busca de uma vida melhor, e portanto não mais podiam colaborar. O prédio sofreu grande degradação e foi necessário que a Irmandade de São Elesbão e Santa Ifigênia se desfizesse de vários imóveis para fazer as reformas necessárias à igreja. Esta sobreviveu, foi reinaugurada em 1914 e está presente até hoje, fazendo parte do valioso patrimônio histórico carioca.
Localizada bem no Saara, às vezes é necessária alguma atenção para ser percebida no meio da agitação da rua da Alfândega, mas é válida e sempre será recompensadora uma visita a esse antigo e singular templo. 

sábado, 7 de julho de 2012

BOTAFOGO E LEBLON JÁ ERAM OCUPADOS DESDE 1809


Mapa comprova que o bairro do Leblon é mais antigo


Documento encontrado em arquivo do Exército mostra que bairro já era povoado em 1809

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Especialistas trabalham em um sítio arqueológico no Leblon
Foto: Ana Branco/29-5-2012 / O Globo

Especialistas trabalham em um sítio arqueológico no Leblon Ana Branco/29-5-2012 / O Globo
RIO - Charmoso, aconchegante e famoso. Quem passa pelo Leblon todos os dias não imagina que um dos bairros mais jovens da cidade é na verdade um senhor de idade avançada. A arqueóloga Jackeline de Macedo, que estava trabalhando num sítio arqueológico da região, descobriu no Arquivo Histórico do Exército um mapa de 1809 que mostra os possíveis donos das terras da região, como noticiou a coluna Gente Boa, do GLOBO.
O mapa teria sido feito a pedido de dom João VI, que precisava saber quem eram os donos das terras da então Fazenda Nacional da Lagoa — que englobava os bairros de Humaitá, Jardim Botânico, Gávea, Lagoa, Ipanema e Leblon — para poder desapropriá-las e construir uma fábrica de pólvora. Os achados no sítio arqueológico, no entanto, mostram que a região já era habitada muito tempo antes.
— As peças encontradas na escavação datam dos séculos XVI e XVII. Esse mapa comprova que havia algumas chácaras e até engenhos aqui. O que muda tudo (que se sabia sobre o bairro) — disse Jackeline.
Segundo o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, há relatos de que na região existiam, no século XVII, engenhos e sítios usados por famílias no período de férias.
— Naquela época, era muito comum as famílias ricas terem casas na cidade e sítios mais afastados. Leblon e toda aquela região eram o que hoje é Petrópolis para os cariocas: um lugar para o lazer — disse o historiador.
— O resto de construção que achamos mostra que ali existia um imóvel de grandes estruturas, possivelmente uma casa de engenho. Objetos encontrados no local, feitos de ossos, indicam que ali viviam pessoas mais humildes — contou a arqueóloga Ana Cristina Sampaio, que também trabalhou no sítio.
Arqueólogas : bairro tinha moradores pobres
Alguns estudiosos discordam quanto ao perfil dos moradores do Leblon do século XVII, afirmando que a região era habitada por pessoas de posses. As arqueólogas, no entanto, dizem haver indícios do contrário.
— O Leblon era um ilha prensada entre a Lagoa e dois canais que desembocam no mar. Era ruim morar ali, as pessoas ricas viviam no Centro. Aqueles terrenos sobraram para os mais pobres — afirmou Jackeline.
Cavalcanti discorda dessa opinião e diz que o bairro sempre foi ocupado por famílias de melhor situação financeira:
— Os utensílios achados podem ter sido usados por pessoas mais humildes, sim, mas isso não significa que ali era lugar de gente pobre. Esses achados podem ter pertencido a escravos ou pescadores.
Segundo ele, toda aquela área da orla pertencia à Marinha, que, por questões de segurança, não loteava as terras (a grande ameaça da época eram as invasões marítimas estrangeiras). Por isso, apenas os pescadores podiam construir casas pequenas perto do mar.
O bairro ficou conhecido como Leblon por causa de um comerciante francês chamado Charles, conhecido Le Blond (o louro). Ele era dono de uma chácara na região e, em 1845, criou uma empresa que explorava a pesca de baleia. Na época, o óleo extraído do mamífero era utilizado no sistema de iluminação pública e na construção civil.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

A MORTE DE DOM PEDRO II




A morte de Dom Pedro



ANCELMO GÓIS

Estudo coordenado pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel nos restos de Dom Pedro I (1798-1834), guardados na cripta do Ipiranga, em São Paulo, podem mudar o registro histórico da morte do monarca.

Pela análise, o imperador não teria morrido de tuberculose e sífilis, mas de problemas renais.


Por falar em realeza... 


Desembarca no Rio hoje, para um passeio, a princesa Dona Elena de Espanha, filha do rei Juan Carlos. Bem-vinda. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

RAZÃO IRRACIONAL


Quarta, 04 Julho 2012 11:58

Razão Irracional

Escrito por

O desenvolvimento gerado pela revolução industrial, desde o final do século XVIII, causou grandes transformações por toda parte, não sómente de tipo material como também em idéias e na própria visão do mundo. A expansão vertiginosa do conhecimento científico, principalmente em disciplinas básicas como física e química, e os feitos da engenharia com seus mecanismos multiplicando a força humana, pareciam apontar para um futuro róseo onde a ciência tudo resolveria, libertando o ser humano da escravidão do trabalho com máquinas fabulosas.
Essas concepções, que hoje reconhecemos ingênuas, e das quais, duzentos anos depois, podemos sorrir, avaliando a distância que as separa da dura realidade, estiveram contudo na base de vários movimentos sociais, inclusive aqui no Brasil, onde um representante desse tipo de tendência, o francês Augusto Comte, teria, com suas idéias, papel fundamental na criação da república brasileira.

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O belo e paradoxal Templo Positivista, na rua Benjamim Constant, na Glória
O positivismo, ao pregar a superioridade do conhecimento científico sobre todas outras formas de expressão, substituindo crenças religiosas e filosofia metafísica, desdobrou sua reflexão a outras áreas de conhecimento, como direito e política, as reinterpretando segundo seus cânones, criando condições, assim se pensava, para a construção de uma sociedade ideal, calcada nos únicos valores considerados verdadeiros, aqueles derivados da ciência.
A aplicação dessas idéias a uma sociedade, contudo, poderia não ser muito fácil, pois muitos elementos — mergulhados nas trevas da ignorância — poderiam não aceitar, e persistir em velhos e ultrapassados vícios democráticos, pondo tudo a perder. O corolário é que tal mudança só poderia ser feita de modo autoritário, com uma "elite esclarecida" impondo seu modelo a todos ou outros, para seu próprio bem, é claro. O progresso que a ciência poderia proporcionar só poderia nascer no império da ordem.
Não é por acaso que tal tipo de visão tocou ressoou favoravelmente entre os militares brasileiros do segundo Império, no século XIX, pois as idéias do positivismo de Comte se coadunavam com características básicas da formação militar, como o amor à ordem, disciplina e hierarquia. As novas concepções reforçaram convicções crescentes em favor da criação de uma república, um ambiente que se acreditava propício às idéias positivistas. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, o movimento recebeu a adesão de muitos fazendeiros descontentes com a perda de seus escravos, os quais, movidos únicamente por interesses próprios, deram uma guinada de 180 graus em sua orientação política. Além disso, é claro, contava-se com os habituais intelectuais, a maioria de confeitaria, cuja ocupação quase única resumia-se em aguardar as notícias chegarem de Paris para saber o que pensar ou que opinião emitir. Essa foi a base que criou a república, que, apesar da solenidade e grandiosidade com se tenta revesti-la — verdade seja dita — foi só um golpe militar ao qual o povo assistiu atônito.
Nos primeiros anos dessa nova etapa o positivismo talvez tenha alcançado o zênite de seu prestígio, e algumas figuras de destaque do movimento resolveram construir um Templo Postivista, chamado por eles de Templo da Humanidade, dedicado à Igreja Positivista. Um momento, Igreja Positivista? Mas não foi o positivismo que decretou a inexistência do valor da religião, baseada em falsos pressupostos? Sim, mas agora em vez de se adorar um Deus, coloca-se em seu lugar a Humanidade, um conceito abstrato, e inventam-se rituais, símbolos, dias santos, sacramentos, etc. Pode tentar se explicar o quanto quiser, mas a criação de rituais religiosos por um grupo de indivíduos que prega a racionalidade absoluta parece no mínimo contraditória, ou é então a manifestação atávica de um impulso religioso que, apesar de todos os esforços, não pôde ser reprimido...
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Augusto Comte e sua musa Clotilde de Vaux, imagem viva da Humanidade
Seja como for, as obras foram adiante, e em 1897 era inaugurada na rua Benjamim Constant, na Glória, Rio de Janeiro, o Templo da Humanidade, cuja fachada imita o Panthéon de Paris, no qual a humanidade é personificada pela imagem de Clotilde de Vaux, a musa de Augusto Comte... É monumento de grande importância, que merece ser visitado tanto pelo seu valor histórico quanto por ser uma das materializações mais exemplares das contradições do espírito humano. O templo no momento se encontra em reformas, ao que parece.
O ranço autoritário inerente ao nascimento republicano, inspirado pelo positivismo, iria ainda perdurar por muitas décadas, com várias insurreições, golpes e ditaduras, a última tendo terminado só em 1985. É provável que essa característica tenha tornado impossível, por quase um século, seguir-se uma ordem constitucional como em países desenvolvidos, e criado uma convicção duradoura de que só se pode mudar pelo autoritarismo, contra a qual se vem lutando nos últimos 30 anos, em um processo de consolidação democrática. Felizmente, as novas gerações estão construindo, através da experiência, uma nova página de nossa história republicana, cada vez mais distante de suas origens autoritárias.