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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MUSEU REAL


Museu Real
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 25 de Janeiro de 2012 10:59


A exuberância da natureza brasileira sempre causou profundo efeito em quem entra em contato com suas cenas grandiosas, mesmo que para muitos que moram em cidades isso só aconteça em viagens. O verde, as árvores, o céu azul, exercem efeito revigorante na alma, possibilitando uma pausa saudável ao cinza e à vida confusa dos centros urbanos com seus engarrafamentos, poluição e violência.
 

Se isso acontece hoje, quando a quase totalidade da mata atlântica já desapareceu, e os predadores avançam firmemente na destruição completa da Amazônia, muitas vezes com apoio governamental, imaginem o que  foi há trezentos anos, com quase tudo intocado e com limites que pareciam englobar a terra toda. À fascinação do primeiro momento, com a qual se negociava, seguia-se uma coexistência, na qual o cenário integrava-se inconscientemente, vindo para primeiro plano inevitáveis questões práticas e de interesse utilitário.
 

O encanto da paisagem natural, contudo, nunca deixou de comover o vice-rei Luís de Vasconcellos, que, estando em posição de poder, sentiu-se compelido a algo fazer a respeito. A racionalização de sua admiração materializou-se em projeto bastante palpável de história natural: criar um local que abrigasse coleções de animais típicos da terra, para incentivar o estudo da ornitologia. Acreditava que o conhecimento da natureza local favorecesse uma melhor exploração dos recursos da colônia, pelo menos foi essa a justificativa para a despesa. Para tal foi construído um prédio no Campo da Lampadosa, área pouco ocupada perto da futura Praça Tiradentes, ainda com vários alagados. O prédio, logo chamado de Casa dos Pássaros, ficava em frente à atual Av. Passos, onde está hoje um terreno baldio transformado em estacionamento.
 
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Museu Nacional, ex-Real, no Campo de Santana (gravura de Bertichem -1856)
 

Os encarregados tinham como missão aumentar a coleção com a caça de novos espécimes, sendo que muitos foram fácilmente obtidos abatendo-se aves que ficavam na lagoa da Pavuna, onde é o Largo de São Francisco. Com o tempo, reuniu-se acervo razoável, com centenas de exemplares. A Casa dos Pássaros, contudo, como tantos outros imóveis, foi desalojada com a chegada da côrte portuguesa em 1808. Suas coleções foram guardadas e o prédio utilizado como oficina de lapidação.
 

Sómente em 1818 as peças veriam a luz de novo, pois, de acordo com a iniciativa do ministro Tomás Antônio de Vila Nova Portugal, foram adquiridos os imóveis de João Rodrigues de Pereira de Almeida, no Campo de Santana, para a instalação do Museu Real. A nova casa dedicada à história natural passou a incluir coleções de minerais, além da parte zoológica. Com a Independência, a instituição foi prestigiada, pois José Bonifácio,  ele mesmo mineralogista, lhe dedicou especial atenção. Foi estimulada a colaboração de estrangeiros como Langsdorff e Saint-Hilaire que, em suas viagens exploratórias, enviaram novos exemplares. Um fato curioso deu-se em 1822, quando o manto imperial de D.Pedro I foi feito com as penas dos tucanos do museu, que teve sua coleção assim desfalcada.
 
O prédio também abrigou duas instituições significativas histórica e culturalmente,  a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundada em 1828, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de 1838.  Com D.Pedro II, ampliaram-se as áreas de estudo, sendo incluídos os campos de anatomia comparada, agricultura, artes mecânicas, numismática, dentre outros. Para o sempre crescente acervo a falta de espaço era uma constante, e, com o fim do Império, decidiu-se transferir o museu para a Quinta da Boa Vista em 1892, onde permanece até hoje.
Em 1907 mudou-se para o prédio o Arquivo Nacional, lá ficando até 1985, quando foi para a antiga Casa da Moeda, do outro lado da praça, reformada há poucos anos e uma das mais belas construções do local. O antigo museu está em restauração sob supervisão do Iphan, uma iniciativa elogiável que resgata mais uma peça valiosa daquele que é um dos mais belos conjuntos arquitetônicos históricos do Rio de Janeiro, situado no entorno do Campo de Santana.

BECO DOS CACHORROS


Beco dos Cachorros
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 01 de Fevereiro de 2012 10:38

Um dos pontos altos do patrimônio histórico carioca, seja por sua importância ou beleza, é sem dúvida o Mosteiro de São Bento, no centro da cidade. Há mais de quatro séculos no alto de um pequeno morro, continua dominando a paisagem local, ainda que esta seja prejudicada pelos muitos prédios vizinhos de alto gabarito.
 

Os monges aqui chegaram em 1589, sendo abrigados na ermida de N.Sª do Ó, onde fica o convento do Carmo, mas pouco depois mudaram para casa própria ao receber como doação a sesmaria de Manuel de Brito, que datava de 1573.  No meio desta se encontrava um morro onde foi erguido o mosteiro e a igreja. Para se ter uma idéia das dimensões das terras, pode-se considerar um polígono cujos lados seriam toscamente a região do atual Primeiro Distrito Naval (antigo Cais dos Mineiros) e todo Arsenal da Marinha, estendendo-se até o Morro da Conceição à Prainha (Praça Mauá). Tudo incluído nesses limites passou a pertencer ao Mosteiro, fato oficialmente reconhecido pela Prefeitura do Distrito Federal em levantamento feito em 1906.
 

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O Beco dos Cachorros com a Candelária ao fundo, antes das reformas de Passos
 

Apesar da grande extensão, nos séculos XVI e XVII as terras ainda eram de difícil aproveitamento, e, com a chuvas, seu alagamento transformava o morro em verdadeira ilha. No local onde seria a futura Rua dos Pescadores (Visconde de Inhaúma) havia um rio que drenava parte das águas, mas que, com chuva e maré alta, facilitava mais ainda as enchentes. Com paciência e aplicação, contudo, os beneditinos paulatinamente conquistaram o terreno, sendo o rio desviado para próximo de onde é a rua D. Gerardo, tornando o terreno mais propício à implantação de uma grande horta, que forneceria os gêneros alimentícios necessários.
 

Junto a um trecho desse grande terreno havia um caminho que, saindo da rua dos Pescadores, dava acesso à Prainha, passando junto ao Morro da Conceição, e recebendo, por esse motivo, o nome de Caminho da Prainha. Com o crescimento e a conquista dos alagados, no século XVIII um trecho dessa via recebeu nome menos anônimo, o de rua de Gaspar Gonçalves, morador local. Décadas após, nova mudança, e a rua  virou o Beco dos Cachorros. Embora pareça pouco elegante, a alcunha popular tinha sua razão de ser: em um dos lados da rua ficava a horta dos beneditinos que, além da cerca, era protegida por vários cães contra os possíveis e prováveis ladrões de hortaliças.
 

Ainda nessa época o Mosteiro decidiu alugar uma parte do terreno para a prática de uma das diversões mais populares do setecentismo —fora a briga de galos — que era o Jogo da Bola. Na verdade, nada tinha a ver com o futebol, que não tinha não havia sido inventado, e sim com a Bocha. Havia outros terrenos para jogo de bola, mas esse era um dos mais populares. Seria necessário o destino favorecer a cidade com a vinda da côrte portuguesa anos depois para que as limitadas diversões da era colonial pudessem ceder lugar a práticas mais interessantes e variadas.
 
A construção da Igreja de Santa Rita a partir de 1721 e sua elevação a matriz em 1751 transformou-a em ponto focal da área, o que fez com que o beco mudasse mais uma vez em 1852, para Travessa de Santa Rita, o que, bem ou mal, tinha uma relação com o local. Mas como o nome das ruas é mais uma das moedas das quais os políticos freqüentemente fazem uso, tal não perdurou, mudando a seguir para Alcântara Machado, alguém que, por mais ilustre que possa ter sido, não tem patavina a ver com a rua e sua história. Mais um desrespeito amputando um vínculo com fatos e personagens do passado que, com seus esforços, sucessos e fracassos construíram essa grande cidade.

DO DESTERRO A CIDADE NOVA ! . . . RIO MARAVILHA !


O Espigão da Vila Guarani 

Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 08 de Fevereiro de 2012 11:18

Até o século XVIII, aquela parte da cidade que chamamos Mangue fazia jus ao nome, pois o mar entrava terra a dentro por onde é a Av. Francisco Bicalho, dobrava à esquerda e só terminava nas proximidades do Campo de Santana. Nessa grande área desaguavam ainda vários rios, como o Maracanã, Joana, Trapicheiro, Comprido e Catumbi, além das águas estagnadas próximas ao Morro do Senado, onde fica a atual Praça da Cruz Vermelha. A mistura da água salgada do mar com a dos rios criou condições favoráveis ao desenvolvimento de um ecossistema de manguezais, com toda sua flora e fauna típicas.


O cheiro, contudo, não era dos mais agradáveis, e com o objetivo de algum dia conquistar a área, foram empreendidas algumas iniciativas, como as do vice-rei Conde da Cunha, mas a escala da tarefa ultrapassava os modestos limites coloniais, ficando este vasto manguezal quase no mesmo estado. Sómente após a chegada da côrte portuguesa, em 1808, é que se começou a pensar seriamente no gigantesco projeto de aterro.

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A tranquila Vila Guarani cem  anos atrás. A rua no meio da foto é provavelmente a atual Figueira de Melo



Um primeiro incentivo ocorreu após a mudança da Família Real para a Quinta da Boa Vista, que, pelo seu afastamento dos órgãos administrativos localizados no Centro, obrigava o monarca a deslocamentos rotineiros. Para evitar a tediosa viagem pelo caminho seco, mas longo, via rua do Conde (Frei Caneca), Catumbi e Estácio, fez-se um aterro que permitisse à carruagem real passar pelo mangue de São Diogo, atingindo São Cristóvão após cruzar uma ponte. O local continuava malcheiroso e pestilento, por causa dos mosquitos, e à D. João só restava tapar suas nobilíssimas narinas durante os poucos minutos do trajeto.


Para estimular a ocupação e empurrar o problema para os cidadãos, foi baixada em 1824 uma portaria que isentava de tributação os prédios construídos no local, desde que os proprietários providenciassem os respectivos aterros. Posteriormente, o governo realizou algumas obras que progressivamente conquistaram mais trechos. Mas a urbanização como hoje conhecemos com seu canal central só pôde ser concluída em 1860, com os trabalhos empreendidos pelo Barão de Mauá.


O canal do Mangue seria prolongado até o cais do porto a partir de 1903, sendo realizados aterros que retificaram o litoral. De um lado, desapareceria a Praia Formosa, que ficava onde é a rua Pedro Alves, enquanto que do outro estava a Vila Guarani , trecho do atual bairro de São Cristóvão próximo ao canal e à Av. Francisco Bicalho. Um bairro modesto, servido desde 1883  pelos bondes a burro da Empresa Ferro-Carril de Vila Guarani, logo adquirida pela Cia de Carris de Vila Isabel.


Essa região esteve por muito tempo ligada ao transporte ferroviário, passando a receber os trens da E.F. Rio d'Ouro desde 1919, na estação de Francisco Sá, e a seguir com a construção em 1926 da majestosa gare central da E.F. Leopoldina, a estação Barão de Mauá. Havia uma vasta rede de trilhos, que conduzia aos armazéns do Cais do Porto, para o transporte de diversas mercadorias.


Foi recentemente anunciado que a prefeitura pretende desenvolver nessa área um projeto de urbanização e construção de prédios apelidado com mais um nome carnavalesco de "Porto Maravilha", no qual estão incluídos trechos em ambos lados da Av. Francsico Bicalho, do lado de São Cristóvão e perto da rua Pedro Alves. Nessa última, o espaço será conseguido através de mais uma destruição do patrimônio ferroviário, um conjunto de pátio de manobras e armazéns que data do início do século passado. Do outro lado, pretende-se construir mais um "centro de convenções", culminado por uma torre bestial de 45 andares, próxima à estação da Leopoldina.


Por melhores que sejam as intenções, e, pelo retrospecto, elas geralmente não são muito boas, com interesses velados comandando as iniciativas, é forçoso analisarmos algumas das implicações mais sérias dessa ação.

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Terminal Marítimo da Gamboa, onde foi construída a "Cidade do Samba"

(Memória Histórica de Estrada de Ferro Central do Brasil - 1908)




Em primeiro lugar, o patrimônio ferroviário é um bem precioso, construído com sacrifício desde o século XIX, e é uma infraestrutura dedicada à produção básica, transportando cargas que seriam impossíveis e anti-econômicas para o transporte rodoviário. Essa malha de transporte estava articulada com o Cais do Porto, outra obra voltada para o setor produtivo real. Por razões de conjuntura econômica, o porto do Rio perdeu grande parte de seu movimento, mas continua disponível, podendo voltar a tornar-se um dos mais importantes. Se os acessos ferroviários não existirem mais, assim como os armazéns, que se transformariam no gênero "cultural", a capacidade do porto ficaria sériamente comprometida, e por essa razão deveria se pensar com cuidado no que se propõe. Nos últimos anos o estado vem avançando no patrimônio ferroviário com avidez, como na construção do "Engenhão", que liquidou as oficinas da Central do Engenho de Dentro, e na "Cidade do Samba", que ocupou a área do Terminal Marítimo da Gamboa.


Essas obras com certeza enriqueceram vários arquitetos e empreiteiras, além, é claro, de muitos no poder executivo e legislativo. Mas com isso não foram eliminadas possibilidades futuras de desenvolvimento? Em vários países no mundo todo, as ferrovias se expandem a pleno vapor, tanto no transporte de passageiros como no de cargas, incluindo milhares de quilômetros de vias de alta velocidade. Aqui, se destrói o que conseguiu sobreviver ao século XX em favor do samba e do futebol...


Outro ítem questionável é a torre de 45 andares perto da Leopoldina. Mais uma monstruosidade a agredir não sómente os moradores locais e estimular a especulação imobiliária, mas uma violência à paisagem, que irá macular para sempre o panorama visto por quem chega ao Rio de Janeiro e passa pela Av. Francisco Bicalho para se dirigir ao Centro, Zona Sul ou Tijuca. Esse monumento à insensatez irá quebrar a linha das montanhas e a visão do Cristo Redentor, sendo do ponto de vista turístico um verdadeiro suicídio. Mas a lógica de sua construção é provávelmente outra, ou melhor, a de sempre, de enriquecer alguns mesmo que com prejuízo de muitos.

Seria importante que a comunidade se informasse e adotasse uma postura em relação a essas propostas, que, na forma que se encontram, poderão causar mais danos que benefícios a todos, depois que a cortina de fumaça da Copa do Mundo e da Olimpíada se dissipar.

DESDE 1872 . . . DERRUBADAS PELA PREFEITURA DE PAES ! . . . VERGONHA !


Enviado por Ancelmo Gois -
10.2.2012
|
12h59m
As fotos de hoje

As figueiras do Flamengo

A COLUNA TEM um xodó especial pelas figueiras do Flamengo, plantadas, acredite, em 1872, por iniciativa de Auguste Marie François Glaziou, diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial. Por isto, entende a posição do leitor Maurício José Marzano do Nascimento, que teme pela sorte desta árvore no Largo do Machado (foto maior), cujos ramos desabaram sobre dois carros, terça, por volta de meio-dia. Mas a Comlurb garante que, embora o corte tenha sido feito até uma altura onde se eliminasse o risco de novos acidentes, as brotações podem se desenvolver e voltar a criar uma copa. Já esta outra figueira (foto menor), na Rua Senador Vergueiro, perto do antigo Hotel dos Estrangeiros, não teve a mesma sorte. Tombou para sempre há dez dias. A finada foi testemunha do assassinato do senador Pinheiro Machado, ali em frente, no dia 8 de setembro de 1915. Mas aí é outra história

sábado, 11 de fevereiro de 2012

PREFEITURA DE PETRÓPOLIS E O ABANDONO DA CASA DO VISCONDE DE MAUÁ ! . . . VERGONHA !

O SEU INTERIOR ESTÁ TOTALMENTE DESTRUÍDO ! . . .














FOTOS BY COMANDANTE CARLOS EDUARDO LIMA

CORAL, PRESERVA O PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE PARATY . . . VALEU !


Projeto que pinta fachadas em todo o país com a ajuda de voluntários chega à Paraty


Prédios do Centro Histórico, uma escola e cinco casas serão pintadas
Prédios do Centro Histórico, uma escola e cinco casas serão pintadas Foto: Divulgação / Wagner Braga

Raiane Nogueira*
EXTRA

Há 12 anos, uma marca de tintas decidiu levar um pouco de cor para as fachadas das casas de diferentes regiões do Brasil. A ideia, batizada de "Tudo de cor para você", deu certo e foi bem recebida esta semana, em Paraty, onde a Coral promoveu sua 11, no dia 8. O projeto ficará oito semanas na cidade, com um mutirão de pintura que vai colorir 77 imóveis. Em breve, os felizardos serão os cariocas: a expectativa é que cerca de 1.500 casas do Morro Santa Marta, em Botafogo, comecem a ser transformadas ainda este ano.
Em Paraty, foram escolhidos três pontos: ruas do Centro Histórico, uma escola e seis casas de famílias carentes da Ilha das Cobras, que terão não só as áreas externa e interna dos imóveis pintadas.
— Entrevistamos 55 moradores, perguntando porque gostariam de ter suas casas pintadas. Escolhemos as melhores justificativas — explica Abreu.
A caminho do Rio
A Coral já esteve na comunidade em 2010, quando cerca de 50 casas da Praça do Cantão tiveram suas fachadas pintadas por aprendizes capacitados pelo projeto, pintores profissionais e voluntários.
— Foi a primeira edição numa comunidade. Capacitamos 30 moradores, que tiveram a carteira assinada por determinado período e trabalharam na ação. Agora, estamos negociando com o governo do estado e a prefeitura para colorirmos toda a região. A ideia é deixar tudo pronto até a Copa do Mundo, em 2014 — adianta Marcelo Abreu, gerente de Marketing Institucional da AkzoNobel e do projeto.
O projeto
A implantação acontece em quatro etapas. Inicialmente, é escolhida uma cidade, de acordo com sua relevância histórica e com a importância do impacto da ação no cotidiano da região. Em seguida, são feitas as negociações com líderes locais — como prefeitura e associação de moradores — para definir os imóveis que serão pintados e como será oferecida a capacitação. Após a seleção, os aprendizes fazem um curso de pintor. Por fim, toda a comunidade é convidada para pôr a mão na massa e colorir as fachadas.
*A repórter viajou a convite da Coral


sábado, 21 de janeiro de 2012

NOSSA SENHORA DO PARTO

O Incêndio 

Escrito por Paulo Pacini Qua, 18 de Janeiro de 2012 10:26 

Muitos que trabalham ou vão ao centro da cidade jamais poderiam imaginar que uma das igrejas mais antigas do Rio de Janeiro se esconde no interior de um espigão, passando desapercebida se não se atentar ao letreiro, que em vez de lanches rápidos ou sapatos anuncia: Igreja de Nossa Senhora do Parto. Mas como chegou a essa configuração bizarra um templo que, pelos séculos de existência, deveria ter sido preservado enquanto patrimônio? Tudo começa em 1649, quando o carpinteiro João Fernandes adquire um terreno na "rua que ia para Santo Antônio", isto é, rumo ao convento e a lagoa de mesmo nome, que ocupava o que é hoje o Largo da Carioca. Do outro lado, a área era limitada pela rua de São José, e no canto dessa o quase anônimo Fernandes erigiu um templo dedicado a N.Sª do Parto, que continuaria modestamente por décadas adiante, com algumas obras de conservação.

Incêndio do Recolhimento do parto em 1789, obra de João Francisco Muzzi Grandes mudanças ocorreram, contudo, no século seguinte. 

Em 1742, ao falecer, Estevão Dias deixara a soma de quarenta mil cruzados para obras pias, que, por decisão do bispo frei Antônio do Desterro, foi empregada anos depois para se construir algo considerado extremamente oportuno então, um "asilo para mulheres de vida desonesta, que estivessem arrependidas". Não deixou o bispo de reparar o terreno desocupado ao lado da Igreja do Parto, entrou em entendimentos e, em 1759, era inaugurado — para melhor ou pior — o famoso Recolhimento do Parto, com capacidade para cinquenta mulheres. Além das pecadoras arrependidas, recebia mulheres casadas, as quais desse modo poderiam "se livrar da morte", por conta de algum ato condenável, como adultério, ou então para que os "maridos as livrassem de continuar a ofendê-los". Em um século em que o poder do pai de família era incontestável e quase absoluto, era de se esperar que abusos acontecessem, e, de fato, aconteceram. Pais insatisfeitos com filhas que não aceitavam o noivo escolhido, maridos que não aturavam o temperamento das esposas ou que desejavam delas se livrar, tudo poderia tornar-se pretexto para que fossem enviadas à verdadeira prisão em vida que o Recolhimento representava. Segundo o escritor Joaquim Manuel de Macedo, que melhor relatou a história dessa instituição, só a menção do nome do lugar pelo marido servia para extinguir imediatamente qualquer manifestação de rebeldia por parte da esposa. Melhor era engolir o que quer que fosse a perder a preciosa liberdade, ainda que limitada. Algumas mulheres, contudo, por inconsciência ou erro de cálculo, resolveram se arriscar em aventuras no mínimo temerárias, pois em uma pequena comunidade como o Rio de então, era muito difícil furtar-se aos olhares para sempre. Macedo nos relata o caso de duas mulheres, inicialmente amigas, que envolveram-se em adultério e acabaram no Recolhimento, sendo que uma delas, Ana Campista, para lá foi à revelia do pai, que desejava antes matá-la. Tal aconteceu em 1789, e o novo prédio do Recolhimento, cujas reformas feitas pelo vice-rei Luís de Vasconcellos iniciaram dois anos antes, estava a pleno funcionamento, com grande número de internas. Matilde e Ana Campista, nessa época já de relações cortadas, resolveram, cada uma por si, atear fogo ao odiado Recolhimento, que as retirou do convívio mundano e lançou-as ao mais profundo desespero. Corria serena a madrugada de 24 de agosto, quando o grito de incêndio acorda a todos em sobressalto, e logo se espalha pela cidade, com os sinos das igrejas anunciando a emergência. Luís de Vasconcellos vai em pessoa coordenar os esforços, auxiliado pelo amigo Mestre Valentim. Para ele era uma perda quase pessoal ver a destruição de obra tão recente e, segundo muitos, tão útil. Como se esperava, nada adiantou, só restando as paredes de pedra. Mestre Valentim não lamentou, pois achava o prédio uma obra de péssima estética, e só havia nele trabalhado por insistência de Luís de Vasconcellos. A contragosto, contudo, viu-se obrigado a mais uma vez reformá-lo. Tal foi o afinco com que todos se dedicaram à empresa que, inacreditavelmente, em 8 de dezembro do mesmo ano, voltaram as reclusas para a casa. Dentre elas estava Matilde, que não conseguiu fugir. Ana Campista desapareceu e nunca mais foi vista, o que bastou para incriminá-la como autora do sinistro.
Igreja de N.Sª do parto hoje, no interior de um prédio na rua Rodrigo Silva 

 Apesar da reconstrução, nas décadas seguintes o local entraria em processo de decadência, e, em 1814, acabava o recolhimento com a transferência para lá do hospital da Ordem Terceira do Carmo, desalojado de seu domicílio na rua do Carmo para que fosse instalada em seu lugar a Biblioteca Real. O hospital ali permaneceu até 1870, quando mudou para seu novo endereço na rua do Riachuelo. O prédio foi muito afetado quando do alargamento da rua da Assembléia, durante a abertura da Av. Rio Branco, e na década de 1950 seria demolido junto com a igreja, esta com 350 anos de idade, para dar lugar a mais um espigão. Não era uma igreja grande nem bela, mas foi cenário de importantes acontecimentos passados, devendo ter sido protegida pelo tombamento, mesmo que ao seu redor se levantassem prédios modernos, pois era ponto de referência valioso na história do Rio de Janeiro.