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terça-feira, 13 de novembro de 2012

RIO DE JANEIRO E O SEU PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL !


Sobrado do Corredor Cultural vira estacionamento de motos no Centro


Como a construção, atingida por incêndio, é particular, prefeitura alega que nada pode fazer

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Ruínas de sobrado agora são usadas como estacionamento por motociclistas
Foto: Foto do leitor Daniel Azevedo/ Eu-Repórter
Ruínas de sobrado agora são usadas como estacionamento por motociclistasFoto do leitor Daniel Azevedo/ Eu-Repórter

RIO - De edifício do século XIX preservado pelo Corredor Cultural do Centro do Rio a paredes escoradas que abrigam um estacionamento de motos. Essa é a transformação sofrida pelo sobrado do número 76 da Rua da Constituição, esquina com a Rua República do Líbano, onde até o último dia 11 de abril funcionava uma loja de eletroeletrônicos destruída por um incêndio.

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O leitor Daniel Azevedo fotografou o uso irregular da parte interna do casarão, abrigando motocicletas, situação vista há pelo menos um mês.
- Antes, o local estava cheio de entulho. Agora, tiraram e virou um estacionamento de motocicletas. A fachada está escorada por um pedaço de madeira e corre o risco de cair em caso de alguma colisão - relata Azevedo, também apreensivo com as condições gerais de grande parte dos prédios do Centro histórico da cidade.
Na época do incêndio, o proprietário do imóvel se negou a pagar o serviço de escoramento das estruturas que ameaçavam desabar. Por isso, a prefeitura realizou uma demolição controlada dessas partes.
A Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) enviou uma equipe de fiscalização ao local nesta sexta-feira. Segundo a Seop, os fiscais constataram que as motos são de comerciantes locais e que ninguém explora comercialmente as vagas. Como o terreno é particular, a secretaria não pode agir.
A restauração necessária do sobrado, a cargo do dono, continua sem prazo definido para acontecer. O pedido já foi aprovado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, que afirma acompanhar o caso de perto.


CENTRO EMPRESARIAL SENADO . . .


Futura sede da Petrobras atrai empreendimentos e revitaliza área do Rio antigo

Os pontos comerciais se multiplicam para disputar cerca de dez mil funcionários da empresa


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Casario no entorno do novo prédio da Petrobras, na Rua do Senado: renovação Foto: Carlos Ivan / O Globo
Casario no entorno do novo prédio da Petrobras, na Rua do Senado: renovaçãoCarlos Ivan / O Globo
RIO - “O lugar está com outro aspecto, de cidade mesmo, sabe?” O comentário da contadora Madalena de Freitas Costa, moradora da Travessa Dídimo, no Centro, vem depois da enumeração de mudanças que tem percebido em sua vizinhança: restaurantes e lojas abrindo, mais segurança à noite e melhor iluminação nas ruas. Como vários outros moradores e comerciantes da região, Madalena vive a expectativa do fim das obras no entorno do Centro Empresarial Senado, nova sede da Petrobras a partir de janeiro, no quarteirão formado pelas ruas do Senado e dos Inválidos, pela Avenida Henrique Valadares e pela Travessa Dídimo. Depois de mais de quatro anos de muita poeira e barulho de máquinas, a ida da estatal para o endereço, aliada a obras de urbanização, começa a mudar a paisagem local.
Os pontos comerciais se multiplicam para disputar cerca de dez mil funcionários da Petrobras, mais quatro mil pessoas que visitarão as torres diariamente, segundo estimativas da WTorre Rio, construtora responsável pelo empreendimento de R$ 600 milhões, que será alugado pela estatal. Na Avenida Henrique Valadares 17, a Galeria da Lapa, aberta há poucos meses, oferece 18 boxes para comerciantes — dez já estão ocupados. O aluguel do espaço de cinco metros quadrados custa R$ 3 mil. Há três meses no ponto, os donos do Mix Café estão ansiosos.
— Já adiaram a inauguração das torres algumas vezes. Esta parte do Rio estava meio morta e agora terá grande circulação. Resolvi apostar aqui — diz Patrícia Pinheiro, sócia do café.
Dono do recém-aberto restaurante Rösti Grill, na mesma avenida, Luis Felipe Murray pensa em adquirir outro imóvel na região para mais um negócio. Mas, na corrida por pontos comerciais, a WTorre saiu na frente e comprou 12 sobrados nas ruas do Senado e dos Inválidos, que estão sendo revitalizados e serão alugados para comerciantes. Outras 13 construções da área, incluindo a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, o Palácio da Polícia Central e a Sociedade Brasileira de Belas Artes, também estão sofrendo melhorias — algumas são parte do acordo feito com a prefeitura na aprovação do projeto das torres. A previsão de Antonio Paulo Magalhães, diretor da WTorre Rio, é que as obras, na maior parte de recuperação de fachadas, telhados e estruturas, fiquem prontas até o fim do ano, assim como todo o entorno do empreendimento:
— A área vai virar o ano com novos calçamento e paisagismo, além de postes com iluminação em LED instalados. Só ficarão para 2013 a urbanização do trecho que liga o empreendimento à Central do Brasil, pela lateral do Campo de Santana, e a recuperação da Garagem Poula (uma cocheira da época do Império), que compramos com a intenção de ocupar com uma livraria e um bistrô. Já funcionam na região 12 câmeras.
Os novos tempos vêm acompanhados pela alta vertiginosa dos preços de imóveis que se vê em outras partes da cidade. Um estudo imobiliário sobre a região encomendado pela WTorre Rio mostra um aumento de até 450% nos valores entre 2007 e maio de 2012. A experiência de compra da própria empresa mostra a elevação.
— Na aquisição dos primeiros sobrados, pagamos entre mil reais e R$ 1,5 mil pelo metro quadrado. Nos últimos, o valor já estava em R$ 10 mil — conta Magalhães.
Imóvel de R$ 135 mil hoje vale R$ 450 mil
Outro exemplo é o prédio residencial na Rua da Relação 43, que acaba de ficar pronto. O comandante de embarcações José Carlos Ramos comprou em 2010, ainda na planta, duas unidades de quarto e sala por R$ 135 mil. Hoje, cada apartamento não sai por menos de R$ 450 mil.
Morando de aluguel num imóvel de dois quartos na Travessa Dídimo, o bancário Michel Costa conta que o valor do contrato há dois anos era de R$ 900. Hoje, os proprietários não pedem menos de R$ 2.200.
— Apesar do aluguel mais caro, os moradores estão empolgados. Sofremos um bocado com as obras, várias construções tiveram rachaduras e agora queremos ver o resultado. O trânsito é que ficará um caos — teme Michel.
O Centro Empresarial Senado inclui no subsolo uma garagem com cinco pavimentos e cerca de duas mil vagas, num estímulo ao uso do carro no Centro Histórico que vai na contramão das tendências internacionais de sustentabilidade. Segundo Magalhães, cerca de cinco mil funcionários da Petrobras vão de carro para o trabalho. Moradores como Michel acreditam que as vias estreitas da região não suportarão tamanho movimento de veículos. O diretor da WTorre Rio argumenta, no entanto, que um acordo com a CET-Rio garantirá boa fluidez ao trânsito: serão instalados 14 sinais luminosos na área, que poderão ser ajustados de acordo com os fluxos de cada horário do dia; as ruas ganharão recuos para os pontos de ônibus; e as áreas de estacionamento nas vias serão eliminadas.
Três dos sobrados comprados pela WTorre já têm destino certo. O que fica na esquina da Henrique Valadares com a Rua dos Inválidos abrigará um banco. Já dois sobrados contíguos na Inválidos terão seus espaços internos integrados para receber uma filial de uma rede de fast food. Entre a futura lanchonete e o banco, fica a papelaria Radial, no número 98 da Inválidos. Funcionando ali desde os anos 50, o estabelecimento foi alvo de uma oferta de compra de R$ 6 milhões da WTorre. A resposta dos irmãos proprietários do negócio foi “não”.
— Nascemos e moramos aqui. Não é agora que as coisas tendem a melhorar que vamos nos desterrar. Contribuímos muito para que esse terreno (das torres) não fosse invadido (eles costumavam alertar a polícia para a presença de invasores). Ele ficou abandonado por anos — conta Manuel Silva, um dos donos da papelaria.
Uma das expectativas de Manuel é se a nova rede de drenagem instalada pela WTorre nas ruas da área e o piscinão para captar a água da chuva serão eficientes para dar um fim às constantes enchentes. Segundo Magalhães, as tubulações de esgoto e de águas pluviais foram separadas. Já a capacidade do piscinão — de oito milhões de litros de água — foi definida com base no maior índice de chuva dos últimos 25 anos.
No local viveram Villa-Lobos, Dalva de Oliveira e Mário Lago
Esta não é a primeira vez que o terreno da Rua do Senado onde foram construídas as torres sofre uma grande mudança depois de um período de abandono. Até 1890, ficava ali a Chácara dos Inválidos, uma propriedade decadente que servia de abrigo para pessoas sem moradia. Em seu lugar, naquele ano, começou a construção da Vila Rui Barbosa, que ocupou todo o quarteirão com 145 casas para famílias e 324 cômodos para solteiros em sobrados. A curiosidade é que, nos andares para solteiros, era exigido um casal na extremidade de cada corredor para se manter a decência.
Inaugurada em 1901, a vila só ficou pronta em 1912. Em seu interior, de ruas arborizadas, havia também uma lavanderia, armazéns e uma carvoaria. O conjunto arquitetônico em estilo eclético, construído para ser uma vila operária, acabou ocupado por cariocas de classe média.
No livro “No tempo da Vila Rui Barbosa”, o jornalista Celso Balthazar detalha histórias dos moradores ilustres da vila, que, no final da década de 1910, já se mostrava um forte reduto de festas.
O músico Heitor Villa-Lobos, por exemplo, morou com a mulher no número 10 da Rua Dídimo. Outros nomes de peso da música brasileira na vila foram Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, que levaram para morar lá o parceiro Nilo Chagas, com quem formavam o Trio de Ouro. Já o ator Mário Lago, segundo Balthazar, foi viver na vila ainda menino. O apresentador Silvio Santos e o radialista Luiz Mendes também moraram no conjunto, que acabou demolido nos anos 70. A intenção era construir prédios residenciais no terreno, que ficou desocupado até o início das obras das torres.

domingo, 11 de novembro de 2012

AS JÓIAS ARQUITETÔNICAS AINDA NÃO DESTRUÍDAS !


O discreto charme de outras joias arquitetônicas


Pouco conhecidos, prédios nos estilos art nouveau, art déco e moderno ajudam a embelezar a cidade

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Art déco. O Tabor Loreto, no Flamengo, com a grade vazada para os salões
Foto: Ana Branco / O Globo
Art déco. O Tabor Loreto, no Flamengo, com a grade vazada para os salões Ana Branco / O Globo
RIO - Eles não criaram a paisagem carioca. E, nem sempre, são os autores dos grandes ícones da arquitetura da cidade, como o Teatro Municipal ou o Edifício Gustavo Capanema. Mas marcaram sua assinatura em belas construções, que hoje fazem do Rio um mosaico interessante de diferentes estilos e épocas. Com um pouco de calma e o olhar atento, o pedestre descobre verdadeiras obras de arte a céu aberto em meio à selva de pedra. E ainda faz uma viagem ao passado.
Em frente ao número 734 da Rua do Russel, na Glória, é necessário algum tempo de observação para apreciar todos os detalhes do casarão em estilo art nouveau. Comparado a Gaudí, o italiano Antonio Virzi é o arquiteto da construção de três andares, chamada de Casa Villino Silveira, hoje propriedade do empresário Eike Batista. A formas de Virzi são imprevisíveis, e cada pequena ornamentação surpreende o olhar, como os laçarotes em ferro presos às colunas.
Virzi chegou ao Rio em 1910, foi professor da Escola Nacional de Belas Artes e construiu diversas propriedades para uma burguesia carioca mais extravagante. A Casa Villino Silveira data de 1915 e foi erguida para Gervásio Renault da Silveira, fabricante do Elixir de Nogueira.
— Se tivesse feito o mesmo na Itália, teria sido um arquiteto de renome internacional — afirma o arquiteto Alberto Taveira, do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
Professor de história e teoria da arquitetura na Universidade Rural, Claudio Antônio Lima Carlos diz que o art nouveau valoriza elementos naturais e o estilo livre, como os que são vistos no endereço:
— Nada do Virzi é previsível, ortogonal ou simétrico.
No mesmo trecho da Russel, o Edifício Milton é outra joia arquitetônica, classificada como eclética, com algumas formas em art déco. No passado um dos endereços mais elegantes da cidade, com seu portal de mármore verde, o prédio foi projetado por Adolpho Dourado Lopes, em 1929.
— Ele era dono, em sociedade, da construtora Gusmão, Dourado & Baldassini, uma das maiores do Rio na época. Eles faziam prédios imensos — diz Taveira.
O telhado é inspirado no renascimento francês, e as venezianas verdes que ainda restam chamam a atenção. O nome do imóvel veio do seu construtor e primeiro proprietário, Milton Carvalho, sócio do magazine A Exposição.
Andando mais um pouco, a Praia do Flamengo reserva algumas pérolas. O Tabor Loreto, no número 244, tem a assinatura do arquiteto francês Henri-Paul Pierre Sajous, também autor do Biarritz, a poucos metros de distância e ícone do art déco. No mesmo estilo, o Tabor Loreto (de 1940) é mais grandioso e vanguardista.
— A grade em ferro batido que chanfra a quina do prédio é extremamente moderna para a época — analisa o presidente do Instituto Art Déco Brasil, Márcio Roiter.
Sajous foi autor de outras construções importantes, como os prédios da Mesbla e da Associação Comercial.
Entre os projetos escondidos na paisagem e que merecem destaque para o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti está o do Liceu de Artes e Ofícios, na Rua Frederico Silva, Cidade Nova. De 1957, o conjunto tem o formato de E e três blocos interligados por passadiços. O desenho é de Enéas Trigueiro Silva. Antes, o arquiteto projetara escolas durante a administração de Anísio Teixeira na Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal (1931-1935).
— Eu o considero pós-moderno. Destaco o uso de elementos do modernismo, como o cobogó, as rampas, os pilotis e o teto plano — diz Nireu.
O passado do Centro do Rio espremido entre espigões de vidro
A Avenida Rio Branco, no Centro, reserva um corredor curioso de prédios que começa na esquina da Rua do Ouvidor e segue pela Miguel Couto. Com edifícios envidraçados e de cor escura em volta, o grupo de construções antigas e coloridas se destaca na paisagem. A mais chamativa é a da Ouvidor 116, na esquina com a Miguel Couto, com seu estilo eclético e influências egípcias, vistas em duas esculturas no segundo pavimento e em pinturas nas paredes. O nome do arquiteto foi esquecido no tempo. Ao lado, há dois exemplares art déco: um construído pela empresa J.A. Costa & Cia. em 1932, de cor ocre, seguido por outro de 1931, cinza, do arquiteto e construtor Joaquim da Silva Cardoso.

IPHAN . . . UMA VERGONHA REPUBLICANA !


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Garagem Poula


Enviado por Ancelmo Gois -
8.11.2012
|
12h50m
A foto de hoje

No tempo das carruagens



Este prédio histórico, deteriorado, exemplar da arquitetura eclética de inspiração clássica e art nouveau, na esquina das ruas Gomes Freire e do Senado, no Centro velho do Rio, será, em breve, totalmente recuperado (veja na reprodução do projeto aqui acima como vai ficar). 

Trata-se da Garagem Poula, construída em 1910 para abrigar carruagens e uma hospedaria. 

Quem vai tocar a obra é a construtora WTorre, que finaliza, ali perto, o Centro Empresarial Senado, a ser usado pela Petrobras. 

A empresa assumiu com a prefeitura o compromisso de revitalizar parte do patrimônio arquitetônico da região, como o Solar do Marquês de Lavradio, o prédio do finado Dops e a Garagem Poula


A Garagem de Santo Antônio


Quarta, 07 Novembro 2012 09:30

A Garagem de Santo Antônio

Escrito por

A introdução da tração elétrica nos bondes do Rio de Janeiro, em 1892, significou um tremendo salto de qualidade na história do transporte carioca. Agora, as viagens poderiam ser feitas com mais rapidez, e, além disso, ia desaparecendo do ar o cheiro de estrume com a aposentadoria dos animais de tração, que teriam seu merecido descanso.
A primeira empresa usar a eletricidade foi a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, o que era esperado, pois dispunha de mais recursos. Mas a segunda companhia a adotar a nova tecnologia, a Companhia Ferro-Carril Carioca, foi até certo ponto uma surpresa, pois tinha linhas exclusivamente no bairro de Santa Teresa, e era bem menor que outras, como a de São Cristóvão ou Vila Isabel. A inauguração do novo sistema ocorreu em 1º de setembro de 1896, e, além dos bondes elétricos, os passageiros foram brindados com uma grande atração extra.
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Bondes de Santa Teresa na garagem do Morro de Santo Antônio,nos
últimos tempos da da Cia. Ferro-Carril Carioca, começo dos anos 60.
Até essa época, o acesso a Santa Teresa era feito principalmente de duas maneiras: pela rua Monte Alegre, rota usual das diligências, e pelo Plano Inclinado, a partir de 1877, cujo embarque ficava na rua do Riachuelo junto à Ladeira do Castro, levando os passageiros até próximo ao Largo do Guimarães. Ao lá chegar, embarcava-se em bondes de tração animal para ir a Paula Matos ou em direção ao França e Silvestre. A tração elétrica, contudo, abriu uma nova e excitante possibilidade: uma vez que o velho aqueduto da Carioca (os arcos) encontrava-se desativado, pois a maior parte da água então consumida provinha do Rio d'Ouro, porque não utilizá-lo para acessar o morro de Santa Teresa?
Obtidas as devidas autorizações, tal foi feito, e é aliás pelo fato de que esses bondes passam pelos arcos que possuem a incomum bitola de 1,10m, largura máxima possível dadas as limitações da antiga construção. A estação de partida foi instalada no Largo da Carioca, inicialmente entre o prédio da Imprensa Nacional e o chafariz da Carioca, que se localizava próximo à saída Santo Antônio do metrô. Os bondes a seguir iam subindo uma ladeira pelo morro de Santo Antônio para alcançar os arcos, cuja travessia arrepiou os pelos da nuca dos primeiros passageiros.
Próximo à linha no morro de Santo Antônio foi instalada a garagem da Cia. Ferro-Carril Carioca. Com bastante espaço para abrigar os muitos veículos, bem mais que atualmente, pois além das unidades motorizadas haviam reboques, a velha garagem prestou serviços até a destruição final do morro, aproximadamente em 1965. Ela pode ser vista em trechos do filme de Marcel Camus Orfeu Negro, de 1959, onde o personagem principal é funcionário da empresa de bondes. Na verdade, a película mistura cenas da garagem da Ferro-Carril Carioca com bondes da Jardim Botânico (Light) na Cinelândia.
bonde_carioca

Bonde de Santa Teresa chegando no Largo da Carioca, com a estação ainda
localizada no edifício da Ordem Terceira da Penitência, na esquina
da rua da Carioca. Ao fundo, o Tabuleiro da Baiana.
Com o desaparecimento do morro de Santo Antônio, a garagem dos bondes de Santa Teresa passou a funcionar nas instalações da estação do antigo plano inclinado, no final da rua Carlos Brandt, e lá continua até hoje. O trecho da rua que vai do Largo do Guimarães até a garagem também foi utilizado em outro filme, este de Carlos Hugo Christensen, Crônica da Cidade Amada, de 1964, no episódio A Morena e o Louro, onde os bondes ainda estão pintados de verde, côr da Cia. Ferro-Carril Carioca.
O desmonte do morro de certo modo marcou o início da decadência do sistema de bondes do bairro, acelerado pela entrada funesta da CTC (Companhia de Transporte Coletivo – empresa estadual) na administração do sistema. As chuvas de 66 e 67 destruíram grande parte das linhas, e nessa época foram introduzidos os ônibus no bairro pela infeliz CTC, enormes monoblocos Mercedes que acabaram causando a retirada dos reboques de circulação, pois se encontrassem um bonde com reboque em algumas das muitas curvas fechadas, não seria possível passar.
garagem_ctc

Garagem do morro de Santo Antônio, com os bondes já com as cores da CTC,
em 1965: o início de uma longa decadência.
Quase 50 anos depois, está tudo abandonado, sendo feitas muitas promessas para a recuperação, mas que até o momento não se concretizaram. A longo do tempo, uma série de atitudes infelizes fizeram com que a situação dos bondes só fizesse piorar, incluindo a substituição ilegal do mecanismo de tração original, tombado pelo patrimônio histórico, por um sistema inadequado que acabou causando acidentes com mortes. Isso se somou aos trilhos em péssimo estado, substituídos em 1978-79 por uma verdadeira gambiarra feita por dois trilhos de trem de cada lado, ao invés dos trilhos de fenda utilizados pelos bondes, que, além de serem inadequados, fizeram com que a pista em torno dos trilhos ficasse totalmente irregular, pois o perfil baixo dos trilhos de trem faz com que o pavimento afunde, e os dormentes acabam formando as famosas "costelas de vaca". Some-se a isso o roubo da fiação aérea entre o Corpo de Bombeiros e o Silvestre, dentre as muitas tragédias, para se ter uma idéia do desprezo e descaso de várias administrações sucessivas de prefeitos, governadores, etc, que usam sem hesitar a imagem do bonde em suas propagandas quando lhes interessa, mas que logo a seguir ignoram completamente sua existência.
Melhor destino merecia aquele que é o único sistema de bondes com bancos em platéia sobrevivente do mundo, e um dos símbolos mais conhecidos desta cidade.



RUA SENADOR DANTAS