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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Senado e sua Rua


O Senado e sua Rua


Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 14 de Dezembro de 2011 12:04
Excluindo-se a área central do antigo Rio de Janeiro, situada entre o mar e os quatro morros mais próximos —  Castelo, Santo Antônio, São Bento e Conceição — e tendo como limite, pelo menos por um bom tempo, a Vala, canal de escoamento situado onde é a rua Uruguaiana, pouco se explorou do território que conhecemos atualmente. Pântanos, alagados e outros terrenos igualmente difíceis restringiam a ocupação, que só deslanchou a partir de meados do século XVIII, com continuadas obras de drenagem.
 

Nesse mesmo século, em locais mais afastados, ainda se encontravam grandes propriedades, chácaras enormes, cuja área valeria uma fortuna hoje em dia. Uma das maiores, senão a maior, pertenceu ao guarda-mor das minas Dr. Pedro Dias Paes Leme, sendo formada pela compra de dois terrenos, um indo da encosta do Morro de Santo Antônio até a rua do Lavradio, e outro desta até a lagoa da Sentinela, já extinta e situada no encontro das atuais ruas Frei Caneca, Santana e Mem de Sá, conforme relata o historiador Vieira Fazenda. Incluído na área estava um morro, chamado inicialmente de Pedro Dias, nome do dono das terras, e depois morro do Senado. O cume desta elevação situava-se onde é hoje a praça Cruz Vermelha, com mais de 50 metros de altura.
 

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Bonde de burros perto da cocheira Recreio, na Rua do Senado
do século XIX 

A mudança do nome do morro ocorreu após a morte do guarda-mor, em 1780, sendo a propriedade dividida entre os herdeiros, e acontecendo a subsequente segmentação dos terrenos. Uma das consequências do loteamento da antiga chácara foi o interesse do Senado da Câmara na abertura de uma rua que passasse junto ao morro, paralela à rua do Conde (Visconde de Rio Branco), iniciando na rua do Espírito Santo (atual Pedro I).
 

O Senado da Câmara, é oportuno salientar, era na verdade um órgão local, equivalente à Câmara de Vereadores. O título de Senado foi concedido pelo rei de Portugal por especial deferência, mas não se relaciona com o Senado do Império, cuja sede ficava no Campo de Santana, onde é hoje a Faculdade de Direito da UFRJ, antiga casa do Conde dos Arcos.
 

A insistência do Senado pela abertura deu nome à rua, assim como ao morro limítrofe, conforme foi dito. A nova progressivamente adquiriu extensão, e na época de D. João VI já ia um pouco além da rua dos Inválidos. A drenagem final da lagoa da Sentinela, em meados do século XIX, possibilitou o nascimento de outro trecho, indo do local da lagoa em direção à parte já existente, que saía da rua do Espírito Santo. Os dois segmentos, contudo, ainda estavam separados pelo Morro do Senado, que só começou a ser desmontado em 1880. Só então pôde ser concluída a Rua do Senado em sua totalidade, como nos é conhecida.
 

Era uma rua como as de antigamente, onde não havia zoneamento que impedisse comércio ou moradia, fazendo parte de uma região populosa e de intensa atividade. Ficou conhecida por abrigar cocheiras e empresas de aluguel de veículos de tração animal, como as famosas carruagens da  empresa S. Mendes & C, ainda bastante procuradas até a primeira década do século XX. O local tem hoje lojas várias, muitas delas dedicando-se à venda de antiguidades, além de utensílios, ferramentas, alimentação, prestação de serviços e outros.
 

Sobre essa área pitoresca, contudo, paira a ameaça da especulação imobiliária, exemplificada pela construção de um prédio monstruoso na esquina das ruas dos Inválidos e Senado, em terreno que foi e deveria continuar a ser do metrô, para construção da linha 2. A obra ameaçou até mesmo fisicamente os imóveis, provocando rachaduras e prejuízos, sendo interditada pela justiça durante o ano de 2010. Uma construção desse tipo, que jamais poderia ter sido autorizada nesse endereço, além disso, ignorou as condições do terreno, que, como mostra a história, era formado por trechos alagados posteriormente aterrados. Esperemos que fatos como esse não se repitam, e que locais históricos e pitorescos como essa rua possam continuar sua existência pelos tempos afora, sem as ameaças dos abutres do lucro fácil.

UMA PEDRA NO CAMINHO . . .


Uma Pedra no Caminho
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 21 de Dezembro de 2011 09:53


É fato relativamente conhecido que Copacabana só começou a se desenvolver no final do século XIX, quando começou o loteamento e serviços básicos foram implantados, dentre eles a linha de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, que chegou em 1892, após a abertura do Túnel Velho.
 
Os novos moradores pouco souberam da história anterior do novo bairro, desde quando era um rincão abandonado, habitado por alguns pescadores, de modo geral inviável pela distância e obstáculos geográficos que o separavam do que é hoje a zona sul e o resto da cidade. Durante o século XVIII o local foi literalmente colocado no mapa, pois, após as invasões francesas de 1710 e 1711, a coroa portuguesa procurou fortalecer as defesas e, temendo ser vítima de outro ataque, construiu postos militares em pontos remotos, com alta probabilidade de desembarque inimigo.
 
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Copacabana no século XIX, com o Inhangá separando a praia em duas metades
 
Nessa época, o grande areal era ocupado por algumas fazendas, as quais se dedicavam ao cultivo de abacaxis, que segiam em lombo de mula até Botafogo, de onde eram transportados por  canoas até a praia pelo rio Berquó, hoje subterrâneo, e daí embarcados até o centro do Rio. Os militares instalaram vários postos, como o da Vigia do Leme, onde fica o atual forte, e uma antiga fortificação, cujos arcos permanecem no alto da Ladeira do Leme. Além das obras de maior porte, foram colocadas baterias em alguns pontos da praia, e dentre essas uma no Inhangá.
 
A formação rochosa do Inhangá era a principal referência desse litoral, pois ficava quase em seu ponto médio, separando a costa em dois trechos: à sua esquerda, de quem olha para o mar, a praia da Vigia do Leme, e à direita a praia de Copacabana. A divisão Copacabana/Leme não tinha como referência a Av. Princesa Isabel, obra feita quase dois séculos após, e sim esse acidente geográfico.
 
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A Pedra do Inhangá na praia, século XIX. Ao fundo, a Igrejinha de Copacabana
 
O Inhangá, ponto pitoresco e conhecido, iria desaparecer por partes, até a quase invisibilidade atual. O trecho junto ao mar seria demolido a partir de 1905, quando foi iniciada a abertura da Av. Atlântica, que inicialmente só tinha seis metros de largura. A pedra estava no caminho da nova via projetada, e com sua remoção a faixa litorânea realizou seu primeiro avanço em direção ao mar. Nos anos 20, foi demolido mais um pedaço do morro, para unir os dois segmentos da Av. N.Sª de Copacabana, que este separava. Após a construção do Hotel Copacabana Palace, mais uma parte cederia lugar à piscina do hotel, em 1935. O resto foi embora nos anos 50, com a construção de prédios, e o que resta hoje, escondido atrás das fachadas, pode ser visto em uma visita ao Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, na rua República do Peru. A consciência de sua localização facilita a compreensão das transformações ocorridas e documentadas em fotografias há mais de cem anos.
 
Copacabana pertence essencialmente ao século XX, e sua urbanização atendeu às necessidades da época. A implantação precoce de serviços essenciais garantiu o sucesso da empreitada imobiliária, fazendo com que o bairro litorâneo incorporasse toda uma nova região. Hoje em dia, contudo, tornou-se necessário pensar em sua evolução e em projetos que melhorem a qualidade de vida dos habitantes. Obras favoráveis ao pedestre, reduzindo as ameaças à segurança e bem estar representadas pelo trânsito pesado e seus veículos estariam em linha com iniciativas similares empreendidas em países desenvolvidos.
 
Em 1965, o urbanista Doxiadis apresentou um plano para a renovação do Rio de Janeiro, encomendado pelo governo Carlos Lacerda. Incluída estava sua visão para Copacabana, onde era proposta uma separação entre pedestres e automóveis, transferindo as lojas e serviços instalados ao nível da rua para o primeiro andar dos prédios, e construindo um piso unindo o novo nível, o qual só seria acessível aos pedestres. Como era de se esperar, o projeto não seguiu adiante, haja visto seu grande impacto . Mas o que sobressai é que, há 50 anos atrás, um especialista de grande calibre colocou como prioridade a separação de pessoas e o caos e perigo do trânsito, um dos principais fatores de degradação da vida cotidiana. Tal intenção pode ser materializar de várias formas, através, por exemplo, da prioridade ao transporte coletivo e restrições à circulação de veículos, ou outro modo alternativo.
 
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Proposta de Doxiadis para Copacabana em 1965: separação entre veículos e pedestres
 
A reumanização dos espaços públicos, colocando como objetivo central o pedestre, é a tendência das melhores e mais avançadas propostas urbanísticas do século XXI. Após mais de cem anos de deformação do espaço físico das cidades para servir ao automóvel, abre-se uma nova era em que ser humano e meio-ambiente são colocados em primeiro plano, de onde nunca deveriam ter saído, aliás, e  uma adaptação ao novo paradigma faz parte do processo.
 
A pedra atual a ser removida hoje, contudo, é a falta de vontade política, que usualmente posterga à eternidade quaisquer iniciativas que não revertam em ganho político. A conscientização e a cobrança por parte das comunidades é o único antídoto conhecido para esse mal crônico.

O Terraço do Passeio


O Terraço do Passeio
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 28 de Dezembro de 2011 10:18

O Passeio Público, além de lugar aprazível, tem a honra de ter sido a primeira área de lazer do Rio de Janeiro, construído em uma época que poucos governantes se preocupavam com a qualidade de vida dos habitantes, mas antes possuir a colônia e garantir o saque de suas riquezas.
 


Felizmente, para os cariocas, o vice-rei Luís de Vasconcellos foi exceção a tal atitude, encarregando seu amigo e artista Mestre Valentim da construção do belo jardim, inaugurado em 1783. Com magnífica vegetação e obras de arte, tornou-se local predileto para o espairecimento da população, que lá ia até mesmo à noite, caso estivesse na lua cheia. A obra mais conhecida do acervo artístico do parque sempre foi o chafariz, conhecido como Fonte dos Amores, que, apesar de perder vários elementos ao longo do tempo, como as cegonhas e o coqueiro, ainda está presente. Do lado oposto, fica o menino que derrama água no barril, com a frase "Sou útil ainda brincando". O original, de mármore, foi roubado no século XIX, e o que lá está — por enquanto —  é uma cópia de chumbo.
 


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Terraço do Passeio no tempo do Império, ainda à beira-mar
 

A estátua do menino ficava em uma parte do Passeio ignorada hoje, que foi o seu terraço. Formado por uma grande área, tinha balaustrada e ficava à beira-mar, com ondas quebrando junto ao paredão. Para complementar, Luís de Vasconcellos criou dois pavilhões no terraço, um em cada extremidade. Tinham forma quadrangular, decorados por artistas mestres em sua arte, um por Francisco dos Santos Xavier, o Xavier das Conchas, e o outro por Francisco Xavier Cardoso, o Xavier dos Pássaros. Usando conchas e penas de pássaros, cada um dos pavilhões foi ornamentado utilizando-as como elemento básico, com grande sucesso na época. Em seu interior, haviam vários murais de Leandro Joaquim.  Infelizmente, o abandono que se seguiu, junto com ressacas violentas, deteriorou os pavilhões, que foram demolidos em 1817.
 


A vinda da côrte portuguesa e a Independência do Brasil não mudaram a situação do pobre Passeio, cada vez mais depredado e decadente, e só durante a Regência, em 1835, é que foram colocadas grades de ferro e feitas mais algumas obras de manutenção, mas foram surtos esporádicos em meio ao abandono prolongado. Seu destino só mudaria com D.Pedro II, em cujo governo, em 1854, foi concluída a construção de dois pavilhões octogonais no terraço, em substituição aos antigos, e em 1862 a reforma geral sob comando do paisagista francês Glaziou.
 


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O mar afastado e o terraço em 1910, tendo em frente a nova avenida
 

A partir de então, o terraço do Passeio se tornaria um dos pontos preferidos do parque. Em 1870, foi instalado no local um bar volante, onde tocava todas as noites uma banda alemã e era servida cerveja da Guarda Velha, uma das fábricas mais antigas, a 400 réis a garrafa. O cliente podia saborear a bebida enquanto apreciava a bela paisagem da baía da Guanabara. A abertura da Av. Beira-Mar, em 1906, afastou definitivamente o mar, e também causou a demolição da balaustrada do terraço, decretando seu fim enquanto área de lazer, pois do som de ondas quebrando passou-se ao barulho de automóveis e outros veículos, perdendo dessa forma o principal atrativo.
 

Restam algumas imagens recordando essa época mais tranquila, e não deixa de surpreender que o terraço do Passeio, cuja rua em frente tem um dos piores tráfegos de toda cidade, pudesse um dia ter sido local tão tranquilo, e, quem diria, à beira-mar.

MUSEU REAL


Museu Real
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 25 de Janeiro de 2012 10:59


A exuberância da natureza brasileira sempre causou profundo efeito em quem entra em contato com suas cenas grandiosas, mesmo que para muitos que moram em cidades isso só aconteça em viagens. O verde, as árvores, o céu azul, exercem efeito revigorante na alma, possibilitando uma pausa saudável ao cinza e à vida confusa dos centros urbanos com seus engarrafamentos, poluição e violência.
 

Se isso acontece hoje, quando a quase totalidade da mata atlântica já desapareceu, e os predadores avançam firmemente na destruição completa da Amazônia, muitas vezes com apoio governamental, imaginem o que  foi há trezentos anos, com quase tudo intocado e com limites que pareciam englobar a terra toda. À fascinação do primeiro momento, com a qual se negociava, seguia-se uma coexistência, na qual o cenário integrava-se inconscientemente, vindo para primeiro plano inevitáveis questões práticas e de interesse utilitário.
 

O encanto da paisagem natural, contudo, nunca deixou de comover o vice-rei Luís de Vasconcellos, que, estando em posição de poder, sentiu-se compelido a algo fazer a respeito. A racionalização de sua admiração materializou-se em projeto bastante palpável de história natural: criar um local que abrigasse coleções de animais típicos da terra, para incentivar o estudo da ornitologia. Acreditava que o conhecimento da natureza local favorecesse uma melhor exploração dos recursos da colônia, pelo menos foi essa a justificativa para a despesa. Para tal foi construído um prédio no Campo da Lampadosa, área pouco ocupada perto da futura Praça Tiradentes, ainda com vários alagados. O prédio, logo chamado de Casa dos Pássaros, ficava em frente à atual Av. Passos, onde está hoje um terreno baldio transformado em estacionamento.
 
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Museu Nacional, ex-Real, no Campo de Santana (gravura de Bertichem -1856)
 

Os encarregados tinham como missão aumentar a coleção com a caça de novos espécimes, sendo que muitos foram fácilmente obtidos abatendo-se aves que ficavam na lagoa da Pavuna, onde é o Largo de São Francisco. Com o tempo, reuniu-se acervo razoável, com centenas de exemplares. A Casa dos Pássaros, contudo, como tantos outros imóveis, foi desalojada com a chegada da côrte portuguesa em 1808. Suas coleções foram guardadas e o prédio utilizado como oficina de lapidação.
 

Sómente em 1818 as peças veriam a luz de novo, pois, de acordo com a iniciativa do ministro Tomás Antônio de Vila Nova Portugal, foram adquiridos os imóveis de João Rodrigues de Pereira de Almeida, no Campo de Santana, para a instalação do Museu Real. A nova casa dedicada à história natural passou a incluir coleções de minerais, além da parte zoológica. Com a Independência, a instituição foi prestigiada, pois José Bonifácio,  ele mesmo mineralogista, lhe dedicou especial atenção. Foi estimulada a colaboração de estrangeiros como Langsdorff e Saint-Hilaire que, em suas viagens exploratórias, enviaram novos exemplares. Um fato curioso deu-se em 1822, quando o manto imperial de D.Pedro I foi feito com as penas dos tucanos do museu, que teve sua coleção assim desfalcada.
 
O prédio também abrigou duas instituições significativas histórica e culturalmente,  a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundada em 1828, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de 1838.  Com D.Pedro II, ampliaram-se as áreas de estudo, sendo incluídos os campos de anatomia comparada, agricultura, artes mecânicas, numismática, dentre outros. Para o sempre crescente acervo a falta de espaço era uma constante, e, com o fim do Império, decidiu-se transferir o museu para a Quinta da Boa Vista em 1892, onde permanece até hoje.
Em 1907 mudou-se para o prédio o Arquivo Nacional, lá ficando até 1985, quando foi para a antiga Casa da Moeda, do outro lado da praça, reformada há poucos anos e uma das mais belas construções do local. O antigo museu está em restauração sob supervisão do Iphan, uma iniciativa elogiável que resgata mais uma peça valiosa daquele que é um dos mais belos conjuntos arquitetônicos históricos do Rio de Janeiro, situado no entorno do Campo de Santana.

BECO DOS CACHORROS


Beco dos Cachorros
Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 01 de Fevereiro de 2012 10:38

Um dos pontos altos do patrimônio histórico carioca, seja por sua importância ou beleza, é sem dúvida o Mosteiro de São Bento, no centro da cidade. Há mais de quatro séculos no alto de um pequeno morro, continua dominando a paisagem local, ainda que esta seja prejudicada pelos muitos prédios vizinhos de alto gabarito.
 

Os monges aqui chegaram em 1589, sendo abrigados na ermida de N.Sª do Ó, onde fica o convento do Carmo, mas pouco depois mudaram para casa própria ao receber como doação a sesmaria de Manuel de Brito, que datava de 1573.  No meio desta se encontrava um morro onde foi erguido o mosteiro e a igreja. Para se ter uma idéia das dimensões das terras, pode-se considerar um polígono cujos lados seriam toscamente a região do atual Primeiro Distrito Naval (antigo Cais dos Mineiros) e todo Arsenal da Marinha, estendendo-se até o Morro da Conceição à Prainha (Praça Mauá). Tudo incluído nesses limites passou a pertencer ao Mosteiro, fato oficialmente reconhecido pela Prefeitura do Distrito Federal em levantamento feito em 1906.
 

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O Beco dos Cachorros com a Candelária ao fundo, antes das reformas de Passos
 

Apesar da grande extensão, nos séculos XVI e XVII as terras ainda eram de difícil aproveitamento, e, com a chuvas, seu alagamento transformava o morro em verdadeira ilha. No local onde seria a futura Rua dos Pescadores (Visconde de Inhaúma) havia um rio que drenava parte das águas, mas que, com chuva e maré alta, facilitava mais ainda as enchentes. Com paciência e aplicação, contudo, os beneditinos paulatinamente conquistaram o terreno, sendo o rio desviado para próximo de onde é a rua D. Gerardo, tornando o terreno mais propício à implantação de uma grande horta, que forneceria os gêneros alimentícios necessários.
 

Junto a um trecho desse grande terreno havia um caminho que, saindo da rua dos Pescadores, dava acesso à Prainha, passando junto ao Morro da Conceição, e recebendo, por esse motivo, o nome de Caminho da Prainha. Com o crescimento e a conquista dos alagados, no século XVIII um trecho dessa via recebeu nome menos anônimo, o de rua de Gaspar Gonçalves, morador local. Décadas após, nova mudança, e a rua  virou o Beco dos Cachorros. Embora pareça pouco elegante, a alcunha popular tinha sua razão de ser: em um dos lados da rua ficava a horta dos beneditinos que, além da cerca, era protegida por vários cães contra os possíveis e prováveis ladrões de hortaliças.
 

Ainda nessa época o Mosteiro decidiu alugar uma parte do terreno para a prática de uma das diversões mais populares do setecentismo —fora a briga de galos — que era o Jogo da Bola. Na verdade, nada tinha a ver com o futebol, que não tinha não havia sido inventado, e sim com a Bocha. Havia outros terrenos para jogo de bola, mas esse era um dos mais populares. Seria necessário o destino favorecer a cidade com a vinda da côrte portuguesa anos depois para que as limitadas diversões da era colonial pudessem ceder lugar a práticas mais interessantes e variadas.
 
A construção da Igreja de Santa Rita a partir de 1721 e sua elevação a matriz em 1751 transformou-a em ponto focal da área, o que fez com que o beco mudasse mais uma vez em 1852, para Travessa de Santa Rita, o que, bem ou mal, tinha uma relação com o local. Mas como o nome das ruas é mais uma das moedas das quais os políticos freqüentemente fazem uso, tal não perdurou, mudando a seguir para Alcântara Machado, alguém que, por mais ilustre que possa ter sido, não tem patavina a ver com a rua e sua história. Mais um desrespeito amputando um vínculo com fatos e personagens do passado que, com seus esforços, sucessos e fracassos construíram essa grande cidade.

DO DESTERRO A CIDADE NOVA ! . . . RIO MARAVILHA !


O Espigão da Vila Guarani 

Escrito por Paulo Pacini   
Qua, 08 de Fevereiro de 2012 11:18

Até o século XVIII, aquela parte da cidade que chamamos Mangue fazia jus ao nome, pois o mar entrava terra a dentro por onde é a Av. Francisco Bicalho, dobrava à esquerda e só terminava nas proximidades do Campo de Santana. Nessa grande área desaguavam ainda vários rios, como o Maracanã, Joana, Trapicheiro, Comprido e Catumbi, além das águas estagnadas próximas ao Morro do Senado, onde fica a atual Praça da Cruz Vermelha. A mistura da água salgada do mar com a dos rios criou condições favoráveis ao desenvolvimento de um ecossistema de manguezais, com toda sua flora e fauna típicas.


O cheiro, contudo, não era dos mais agradáveis, e com o objetivo de algum dia conquistar a área, foram empreendidas algumas iniciativas, como as do vice-rei Conde da Cunha, mas a escala da tarefa ultrapassava os modestos limites coloniais, ficando este vasto manguezal quase no mesmo estado. Sómente após a chegada da côrte portuguesa, em 1808, é que se começou a pensar seriamente no gigantesco projeto de aterro.

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A tranquila Vila Guarani cem  anos atrás. A rua no meio da foto é provavelmente a atual Figueira de Melo



Um primeiro incentivo ocorreu após a mudança da Família Real para a Quinta da Boa Vista, que, pelo seu afastamento dos órgãos administrativos localizados no Centro, obrigava o monarca a deslocamentos rotineiros. Para evitar a tediosa viagem pelo caminho seco, mas longo, via rua do Conde (Frei Caneca), Catumbi e Estácio, fez-se um aterro que permitisse à carruagem real passar pelo mangue de São Diogo, atingindo São Cristóvão após cruzar uma ponte. O local continuava malcheiroso e pestilento, por causa dos mosquitos, e à D. João só restava tapar suas nobilíssimas narinas durante os poucos minutos do trajeto.


Para estimular a ocupação e empurrar o problema para os cidadãos, foi baixada em 1824 uma portaria que isentava de tributação os prédios construídos no local, desde que os proprietários providenciassem os respectivos aterros. Posteriormente, o governo realizou algumas obras que progressivamente conquistaram mais trechos. Mas a urbanização como hoje conhecemos com seu canal central só pôde ser concluída em 1860, com os trabalhos empreendidos pelo Barão de Mauá.


O canal do Mangue seria prolongado até o cais do porto a partir de 1903, sendo realizados aterros que retificaram o litoral. De um lado, desapareceria a Praia Formosa, que ficava onde é a rua Pedro Alves, enquanto que do outro estava a Vila Guarani , trecho do atual bairro de São Cristóvão próximo ao canal e à Av. Francisco Bicalho. Um bairro modesto, servido desde 1883  pelos bondes a burro da Empresa Ferro-Carril de Vila Guarani, logo adquirida pela Cia de Carris de Vila Isabel.


Essa região esteve por muito tempo ligada ao transporte ferroviário, passando a receber os trens da E.F. Rio d'Ouro desde 1919, na estação de Francisco Sá, e a seguir com a construção em 1926 da majestosa gare central da E.F. Leopoldina, a estação Barão de Mauá. Havia uma vasta rede de trilhos, que conduzia aos armazéns do Cais do Porto, para o transporte de diversas mercadorias.


Foi recentemente anunciado que a prefeitura pretende desenvolver nessa área um projeto de urbanização e construção de prédios apelidado com mais um nome carnavalesco de "Porto Maravilha", no qual estão incluídos trechos em ambos lados da Av. Francsico Bicalho, do lado de São Cristóvão e perto da rua Pedro Alves. Nessa última, o espaço será conseguido através de mais uma destruição do patrimônio ferroviário, um conjunto de pátio de manobras e armazéns que data do início do século passado. Do outro lado, pretende-se construir mais um "centro de convenções", culminado por uma torre bestial de 45 andares, próxima à estação da Leopoldina.


Por melhores que sejam as intenções, e, pelo retrospecto, elas geralmente não são muito boas, com interesses velados comandando as iniciativas, é forçoso analisarmos algumas das implicações mais sérias dessa ação.

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Terminal Marítimo da Gamboa, onde foi construída a "Cidade do Samba"

(Memória Histórica de Estrada de Ferro Central do Brasil - 1908)




Em primeiro lugar, o patrimônio ferroviário é um bem precioso, construído com sacrifício desde o século XIX, e é uma infraestrutura dedicada à produção básica, transportando cargas que seriam impossíveis e anti-econômicas para o transporte rodoviário. Essa malha de transporte estava articulada com o Cais do Porto, outra obra voltada para o setor produtivo real. Por razões de conjuntura econômica, o porto do Rio perdeu grande parte de seu movimento, mas continua disponível, podendo voltar a tornar-se um dos mais importantes. Se os acessos ferroviários não existirem mais, assim como os armazéns, que se transformariam no gênero "cultural", a capacidade do porto ficaria sériamente comprometida, e por essa razão deveria se pensar com cuidado no que se propõe. Nos últimos anos o estado vem avançando no patrimônio ferroviário com avidez, como na construção do "Engenhão", que liquidou as oficinas da Central do Engenho de Dentro, e na "Cidade do Samba", que ocupou a área do Terminal Marítimo da Gamboa.


Essas obras com certeza enriqueceram vários arquitetos e empreiteiras, além, é claro, de muitos no poder executivo e legislativo. Mas com isso não foram eliminadas possibilidades futuras de desenvolvimento? Em vários países no mundo todo, as ferrovias se expandem a pleno vapor, tanto no transporte de passageiros como no de cargas, incluindo milhares de quilômetros de vias de alta velocidade. Aqui, se destrói o que conseguiu sobreviver ao século XX em favor do samba e do futebol...


Outro ítem questionável é a torre de 45 andares perto da Leopoldina. Mais uma monstruosidade a agredir não sómente os moradores locais e estimular a especulação imobiliária, mas uma violência à paisagem, que irá macular para sempre o panorama visto por quem chega ao Rio de Janeiro e passa pela Av. Francisco Bicalho para se dirigir ao Centro, Zona Sul ou Tijuca. Esse monumento à insensatez irá quebrar a linha das montanhas e a visão do Cristo Redentor, sendo do ponto de vista turístico um verdadeiro suicídio. Mas a lógica de sua construção é provávelmente outra, ou melhor, a de sempre, de enriquecer alguns mesmo que com prejuízo de muitos.

Seria importante que a comunidade se informasse e adotasse uma postura em relação a essas propostas, que, na forma que se encontram, poderão causar mais danos que benefícios a todos, depois que a cortina de fumaça da Copa do Mundo e da Olimpíada se dissipar.

DESDE 1872 . . . DERRUBADAS PELA PREFEITURA DE PAES ! . . . VERGONHA !


Enviado por Ancelmo Gois -
10.2.2012
|
12h59m
As fotos de hoje

As figueiras do Flamengo

A COLUNA TEM um xodó especial pelas figueiras do Flamengo, plantadas, acredite, em 1872, por iniciativa de Auguste Marie François Glaziou, diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial. Por isto, entende a posição do leitor Maurício José Marzano do Nascimento, que teme pela sorte desta árvore no Largo do Machado (foto maior), cujos ramos desabaram sobre dois carros, terça, por volta de meio-dia. Mas a Comlurb garante que, embora o corte tenha sido feito até uma altura onde se eliminasse o risco de novos acidentes, as brotações podem se desenvolver e voltar a criar uma copa. Já esta outra figueira (foto menor), na Rua Senador Vergueiro, perto do antigo Hotel dos Estrangeiros, não teve a mesma sorte. Tombou para sempre há dez dias. A finada foi testemunha do assassinato do senador Pinheiro Machado, ali em frente, no dia 8 de setembro de 1915. Mas aí é outra história